Crítica: Cinquenta Tons Mais Escuros

Começo essa crítica já avisando que se você leu os livros, esqueça. O filme ensina como ignorar uma obra literária e fazer, em duas horas, uma adaptação sórdida e catastrófica.

Dois anos após “Cinquenta Tons de Cinza”, o primeiro filme da trilogia de livros escrita por E. L. James, Anastasia Steele e Christian Grey voltam em “Cinquenta Tons mais Escuros”, trama que propôs mais suspense e não mostrou a que veio.

No final do primeiro filme, Anastasia foi embora por não saber lidar com o jeito sadomasoquista do relacionamento com Christian. Na continuação, embora tente se manter afastada de Grey, a jovem aceita retomar a relação de uma maneira mais light, sem segredos, punições ou regras. Mas, precisa lidar com um chefe que a assedia, uma ex submissa de seu namorado que tentou se matar e a misteriosa “Mrs. Robinson”, ou seja, quem despertou no protagonista esse seu lado sexual dominador.

Os produtores Dana Brunetti, E.L. James e Michael De Luca, são os mesmos de “Cinquenta Tons de Cinza” e a forma como produzem não muda em nada. Parecem, inclusive, insistir no erro e criar uma produção que foge totalmente do que é apresentado nos trailers (que só focam em um suspense inexistente). Um dos principais erros é a falta de cronologia e apresentação de personagens que ocorrem ao longo do filme. Se você não leu os livros não sabe quem são os novos vilões da trama, porque eles existem ou como influenciam no romance dos personagens principais. Você descobre após um tempo e mesmo assim continua sem ter respostas.

O roteiro, da autora e de seu marido Niall Leonard, é um tutorial de como se ignorar 485 páginas de uma obra literária e focar numa relação “baunilha” que se contradiz ao invés de tratar, como faz o livro, os problemas psicológicos do protagonista causados por uma infância abusiva. Os diálogos são rasos, um bate bola de perguntas e respostas. O que tinha tudo para trazer suspense, emoção e drama ao filme vira um grande circo e arranca inúmeras gargalhadas da plateia. James Foler é quem dirige o segundo volume da trama e parece fazer de qualquer maneira, aliado a uma produção terrível e um roteiro fraco. Até mesmo as cenas de sexo, que antes eram o grande tabu da trilogia, não empolgam.

Quando saiu a escolha de elenco do primeiro filme, até foi fácil aceitar Dakota Johnson no papel de Anastasia. O problema todo é que a atriz não convenceu no primeiro e conseguiu piorar no segundo. Johnson não tem nenhuma expressão – ouso dizer que ficou pário duro com Kristen Stewart e sua péssima atuação nos filmes da saga Crepúsculo – e não tem química com o ator Jamie Dornan. Ele, por sua vez, apresenta um Christian Grey monótono, robótico e artificial. Os dois, juntos, são tão “broxantes” que não causam nenhuma sensação no espectador. Dakota faz uma Anastasia frígida e infantil, conseguindo ser pior que a Anastasia dos livros.

Os novos personagens são o chefe de Anastasia, Jack Hyde (Eric Johnson), que só faltava carregar uma placa com os dizeres “assediador” para soar menos clichê. Leila Willians (Bella Heathcote), uma ex submissa de Christian que é insanamente apaixonada por ele e não consegue entender o que Anastasia tem que ela não tem (ou seja, a típica e ridícula rivalidade feminina incentivada pela indústria cinematográfica). Por último, Elena Lincoln (Kim Basinger), a tão misteriosa “Mrs. Robinson”, que de misteriosa não tem nada: Elena abusou de Christian e foi quem o iniciou nessa prática sexual de dominação e submissão. Todos têm uma péssima atuação que não foge do clichê e, salvo Jack Hyde, fica a pergunta: quem são as outras duas? Uma parece um encosto e a outra só sabe bater na mesma tecla de que Anastasia é incapaz de prover ao Christian o que ele deseja (nesse caso, uma submissa, e convenhamos que ela é incapaz mesmo).

O que salva o filme, mesmo que se apague no meio de tantos pontos ruins, é a incrível trilha sonora de Danny Elfman que mais uma vez não decepciona e também a fotografia de John Schwartzman. Temos “The Scientist”, dos britânicos do Coldplay na voz de Corinne Bailey Rey e a mais conhecida “I Don’t Wanna Live Forever” de Zayn e Taylor Swift, além de outras músicas boas e que dão mais vida ao longa. A direção de arte aposta em um trabalho rico e detalhado, e os figurinos esbanjam o “glamour” típico de ricos americanos retratado em filmes.

Por fim, “Cinquenta Tons mais Escuros” parece ser a grande piada do ano, um filme que não é fiel ao livro e que parece ser feito sem grandes intenções de concorrer a algum prêmio ou contar uma história. Só resta esperar que a sequência, “Cinquenta Tons de Liberdade”, possa finalizar a história de Ana e Christian com um pouco mais de vontade.

O filme possui cenas pós créditos.

Crítica: Cinquenta Tons Mais Escuros
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