14 de dezembro de 2019

Sometimes I buy a book that I won’t read

hoping it will tell me what I haven’t asked

de vez em quando eu compro uns livros que não vou ler

esperando que vão me dizer o que nem perguntei

tô escrevendo em inglês porque me disseram que brasileiro não lê

engraçado que eu estive na bienal no ano passado e quase sufoquei até achar a cara de Van Gogh no estande dos livros de arte

mas se disseram deve ser verdade

engraçado também que a gente anda rejeitando a voz e as tossinhas

e não que 350 ois sejam literatura, mas o que é mais literatura

e a pergunta latente, meu amigo

essa que sopra na orelha

é se ando escrevendo quando ando escrevendo

cê me entende?

ando comparecendo ou sou o cônjuge fazendo sexo enquanto faz as contas com o umzinho lá em cima

sinceramente não sei

a casa do meu pai tem muitas moradas

e não há um templo no Brasil sem o meu nome

não há um monge que não conheça o meu rosto e não tenha me ouvido rezar

mas novamente eu pergunto

a minha voz anda dizendo coisa com coisa das internalidades

sabe, eu vejo o rosto de Manoel de Barros tão plástico que posso tocá-lo

e não sei se ele é uma epifania ou se ele zomba de mim

porque eu até posso a casinha com os quintais e tudo mais

eu até posso podar as plantas e casar com o rapaz

mas enquanto eu matava aquela barata no escritório vendo ela sumir no branco

eu escutava pelo telefone um seilá que a coisa tá difícil na cidade

e eu converso mesmo com o Rio de Janeiro como se ele fosse uma entidade e meu filho, cadê tu

eu fico aqui, eu fico

mas você me dá história

você me dá o alimento

que quem faz prece com o meu nome não reconhece

você sabe

voltemos ao inglês

I write many stories expecting they will tell me

mas não vou traduzir

você puxa da memória o cursinho

já que eu mesma me formei pra antes de 2007 e já desconheço os verbos

a gente nada nada nada e nada

água

mas eu quero boiar

de preferência naquela bóia em formato de chinelo que eu acho no shopping e tá esgotada

eu quero o canudinho, óculos espelhado e tudo

se puder ser rosa agradeço

porque o bom, meu querido

você quer saber quem é o filósofo

filósofo é o maromba de quem você desdenha pelos posts em frente ao espelho

esse sim desvendou a vida

você fica evocando Marx e gente que nunca te viu achando que tem importância

o moço do Tinder já havia cantado a pedra

o corpo o corpo

nada mais bonito que o corpo

saca

se sentir dentro dele

bem dentrinho

não uma partícula flutuante

sentir cada musclinho crescendo nos milímetros

ah, que bonito

bonito, sim

(e é nessa hora que casa com a legenda, você pensa que é barbaridade?)

me falaram que em Nova Jérsei é bonito.


Por Érika Nunes

Show Full Content
Previous Crítica: Cinquenta Tons Mais Escuros
Next Crítica: Marguerite & Julien – Um Amor Proibido

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close

NEXT STORY

Close

Crítica: Yonlu

16 de outubro de 2017
Close