10 de dezembro de 2019

Na hora da morte, o militar, abatido durante um dos conflitos decorrentes da Guerra Civil Moçambicana (1977-1992), avista através da brecha em um vagão de carga as montanhas ao longe que representam sua única oportunidade de liberdade. Estreita e longínqua: assim é que Licínio Azevedo transforma em imagem cinematográfica a ideia de paz em “Comboio de Sal e Açúcar”, último filme do cineasta brasileiro radicado em Moçambique. Pena que essa sutileza não é uma constante no projeto, que acaba comprometendo o seu bom exercício de representação da memória e de identidade do país africano com uma narrativa irregular.

No seu recorte é 1988, faltam alguns anos para o fim do confronto entre tropas do governo e as forças paramilitares e um dos recursos em escassez por causa da deflagração é o açúcar. Dessa forma, uma das práticas de sobrevivência da população é trocar sal pela iguaria em falta no país vizinho e revende-lo em sua própria terra. Os caminhos para execução de tal plano, entretanto, não são tranquilos: é preciso atravessar o litoral de trem, viagem insegura mesmo com escolta militar, já que está à mercê dos ataques da guerrilha da oposição.

Cabe, então, ao comandante Sete Maneiras (António Nipita), um homem misterioso guiado por seu misticismo, liderar o esquema de proteção do comboio Nampula-Malawi auxiliado pelos opostos primeiro-tenente Taiar (Matamba Joaquim) e segundo-tenente Salomão (Thiago Justino); enquanto um tenta injetar integridade em um ofício ingrato, o outro aproveita sua posição de poder para exercer opressão e barbárie. A animosidade entre eles se agrava quando ambos se interessam por Rosa (Melanie de Vales Rafael), uma enfermeira recém-formada que aceita correr os riscos da jornada para poder exercer sua profissão em um hospital longe da capital, Maputo. Assim, em meio à violência do embate político que domina a região, estabelece-se uma dinâmica perigosa entre os três.

Experiente em capturar a realidade do país que lhe abriu as portas, Azevedo emprega no seu segundo esforço fora da sua zona de conforto, o cinema documentário, vigor na reconstrução do contexto histórico e na representação das práticas sociopolíticas e do imaginário moçambicano. O desamparo social frente a instabilidade política, o fantasma da colonização, a pluralidade da matriz religiosa, o choque entre a modernidade e a ancestralidade, os papéis de gênero e sua relação de poder são algumas das questões que o diretor discute na tela através da vida passageiros do trem, histórias adaptadas do romance homônimo escrito por ele. “O importante é que nasça. Nenhum lugar é perfeito, nenhum momento, nenhuma pessoa”, uma personagem encoraja outra que está a pouco tempo de um bebê, uma boa síntese do que é Moçambique, uma país ferido, mas vivo.

O retrato sai ainda melhor com a boa composição de alguns elementos da linguagem cinematográfica. Na direção, o gaúcho tem habilidade para situar a ação dos conflitos, cria uma atmosfera ameaçadora ao enquadrar trilhos de trem infinitos e a névoa que paira sobre as savanas – trabalho também da fotografia de Frédéric Serve – e é sensível o suficiente para estabelecer apenas através de imagens instantes de grande significado como a percepção da paz no olhar de um homem que morre ou alinhar vida e morte ao seguir o plano de criança que nasce no meio dos tiros com o de uma cova rasa que abriga os mortos da luta. Já a trilha sonora de João Carlos Schwalbach é econômica, porém, eficiente, conjurando o barulho das armas e da marcha dos soldados através da batida de tambores tribais.

O que abala as conquistas de “Comboio de Sal e Açúcar”, contudo, são escolhas do roteiro. Verborrágico, o texto assinado por Azevedo e Teresa Pereira vez ou outra esquece da sutileza, colocando na boca dos personagens o que deveria estar subentendido aos espectadores. “Às vezes aqueles que nos defendem, são piores do que aqueles que nos atacam”, explicam o óbvio à protagonista em uma sequência comandada pelo didatismo. “Antes não tínhamos futuro, agora podemos pensar em ter um, se a guerra acabar”, a mesma personagem dá uma aula novelesca ao ser contestada sobre o período colonial recém-acabado em Moçambique.

O desenvolvimento dos protagonistas também sai prejudicado. Mesmo que o longa não tome partido de nenhum dos lados da guerra civil, seus personagens principais, Taiar e Salomão, caem em um maniqueísmo tolo, com pouco espaço para nuances. Fica claro que a guerra moldou o caráter de cada um à sua maneira, mas ainda assim falta frieza no primeiro e vulnerabilidade no segundo; sem áreas cinzentas, ficam empobrecidos. O comandante, por sua vez, é tão imperscrutável que acaba muitas vezes ficando à margem do enredo. No elenco principal, Rosa talvez seja a única que se salva, mostrando-se uma jovem insatisfeita com sua condição enquanto mulher na sociedade, alimentando silenciosamente seu destemor durante os dias de viagem.

Apesar dos defeitos, entretanto, “Comboio de Sal e Açúcar” é muito mais genuíno que experiências recentes que exploram conflitos na África, como, por exemplo, o cínico “Original Netflix” “O Caderno de Sara”. Licínio Azevedo é estrangeiro em Moçambique, mas, ainda que seu filme tenha problemas, consegue retratá-la como muitos talvez não tenham conseguido: com respeito e verdade.

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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