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Filmes

Crítica (2): Creepy

Avatar de Daniel Gravelli
Daniel Gravelli
17 de novembro de 2016 4 Mins Read

O estranho e profundo estilo japonês de se fazer cinema

15591813 1626542717640136 1224451201 n

O que se passa na mente humana? O quão longe somos capazes de irmos para escondermos nossos próprios demônios diante a um sociedade fadada a não se entender?! As razões ou a falta delas sempre serão uma incógnita perante o nosso reflexo no espelho. É através dele que tentamos enxergar a verdade por trás de nossos segredos mais bem guardados, porém, na maioria das vezes, fechamos os olhos com medo de confrontarmos nosso outro lado.

A todo instante somos vítimas de escolhas pessoais, decisões íntimas que transformam nossos pensamentos mais simples em loucuras de cada dia, muitas vezes, responsáveis por idealizar um mundo falso e ignorante. Inúmeros outros fatores são também engarregados por diferentes tipos de surtos, momentâneos ou não, que servem de estopim para uma desprezível e inumana sensação de nos sentirmos cada vez mais inferiores perante certas pessoas, Sentimento poderoso, capaz de mudar quase ou todo o caminho traçado por um indivíduo, levando-o para uma estranha realidade que está cada vez mais próxima.

Situações como essas, leva o ser humano a desenvolver um engodo no peito e na mente capaz de ofuscar toda existência, guiando-o a um derradeiro embate psicológico que necessita de um imenso esforço para ser abandonado. – Em muitos casos, a fábrica dessas ideologias se encontra dentro de nós mesmos, pois somos os responsáveis pelas nossas escolhas e, por assim dizer, em muitos momentos, pelo destino que nos aguarda. Todavia, algumas situações nos faz  acreditar em determinadas circunstâncias, compelindo-nos a aceitar as consequências como um ato fatídico.

Creppy, o novo filme de Kiyoshi Kurosawa, o “maestro” por trás de “The Cure” e “Crimes Obscuros”, é uma impactante obra que nos silencia como espectador, apontando explicações como essas bem como possíveis direções para o psicológico duvidoso de cada uma das personagens. No filme, Takakura é um psiquiatra que trabalhou para polícia em diversos casos importantes, até o dia em que vê sua vida passar por ele durante um confronto com um bandido. Depois disso, tentando se reencontrar, muda todo o caminho que vinha traçando com sua família. Ele abandona o cargo no departamento, passando a dar aulas em uma universidade, e muda de residência com o objetivo de seguir essa nova etapa de sua vida. Tudo parecia estar perfeito até o momento em que um antigo amigo de trabalho aparece pedindo consultoria em um estranho caso de desaparecimento. O que parecia um serviço simples, torna-se uma bizarra teia de coincidências que o leva a enfrentar um mórbido e complexo sociopata. Creepy tableA produção, muito bem centrada, funciona como um tapa de luva para toda a sociedade que, nos dias atuais, não observa o mundo ao redor, ficando a mercê de complicados acontecimentos. Com um trabalho razoavelmente simples o filme, aos poucos, vai arrastando o espectador para uma claustrofobia individual, que nos obriga a refletir deixando-nos sem ar a cada cena.

Chihiro Ikeda e Kiyoshi Kurosawa, escreveram o roteiro a partir do livro “Kuripi” de Yutaka Maekawa. O trabalho é capaz de deixar o público perdido nas possibilidades de verossimilhança, uma vez que você vai a todo momento se perguntar se aquilo é ou não possível, mas devemos nos lembrar que toda frieza e estranheza é pouco perto da realidade do mundo. Com diálogos bem pontuados e personagens muito bem construídos, todas as ações apresentadas acabam tornando-se críveis e impactantes.

A direção de Kiyoshi Kurosawa é um marco para produções do gênero. O desempenho do diretor é extremamente arrebatador, trazendo um cinema puro e de qualidade, com seus planos abertos e movimentos de câmera angustiantes. Kurosawa traça o psicológico não só das personagens através de suas escolhas, mas também revela o efeito que o ambiente causa em cada uma delas, como também no público.

O trabalho realizado com o elenco é espetacular! Todos estão extremamente afiados, com suas construções de personagens bem elaboradoras, destacando expressões que roubam cenas. Hidetoshi Nishijima, na pele de Takakura, nos fornece uma interpretação íntegra, sutil e convincente. Já Yûko Takeuchi no comove como a educada e curiosa Yasuko. Todavia, o grande nome do filme é mesmo Teruyuki Kagawa, como o estranho e inescrupuloso Nishino. O ator passa uma verdade tão grande com seu jogo de cena que é difícil não apreciar sua entrega.

Com paletas de cores destacando o verde, ora com tons em preto e branco, temos uma atmosfera propositalmente desgastada, preguiçosa e efetivamente “Creepy” criada pela fotografia. O sombrio apresentado não chega a dar medo, como nas tentativas forçadas em diversos outros filmes de terror, mesmo porque essa não é a proposta aqui, não esse terror convencional. A intenção do filme é, através do bizarro, causar certos calafrios e inquietações ao extremo.

O departamento de arte, em um todo, possui características impares de um projeto bem realizado. É possível notar o capricho nos detalhes de objetos, espalhados de um jeito bastante peculiar, elevando o filme a um certo nível de excentricidade. Da mesma forma age o figurino que proporciona certa leveza para um ambiente fechado e estranho.

A trilha sonora de Yuri Habuka é outro ponto crucial para produção, que não teria a mesma profundidade sem essa, sendo responsável por causar toda angustia e desejo inesperado de conclusão devido a necessidade de respostas que se acumulam ao longo da trama.

Creppy não é um filme comum ou para qualquer tipo de público. É necessário assistir a produção com paciência, analisando cada detalhe, mergulhando-se a cada cena, seja através dos planos contemplativos ou os closes mais instigantes. Em suma, é uma obra que aguça os sentidos do espectador e merece respeito por sua qualidade de conteúdo, propriamente dito, cinematográfico.

Produção
8.1
Roteiro
8.8
Direção
8.7
Elenco
9
Fotografia
8.4
Figurino
8.4
Direção de Arte
8.3
Reader Rating1 Vote
8.7
8.5

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Me siga Escrito por

Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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One Comment

  1. Avatar de Stefanie Dias Stefanie Dias disse:
    25 de junho de 2017 às 15:33

    Deve ser sensacional, ja quero assistir fiquei curiosa😍

    Responder

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