Não há dúvidas de que George A. Romero ajudou a moldar parte do gênero do terror com a sua trilogia dos mortos, que estabeleceu quase todas as regras e enraizou o conceito de zumbis na cultura pop. Esses três filmes, lançados entre as décadas de 60 e 80, hoje em dia são todos considerados clássicos, e não é surpresa saber que todos eles já foram refilmados desde então. O mais recente desses é “Day of the Dead: Bloodline” , remake de “Dia dos Mortos” (1985), mas enquanto o original surpreende por sua qualidade, que se mantém atualmente, o novo surpreende por ser um desastre completo.

A história se passa cinco anos após o apocalipse zumbi, em uma base militar que também serve de refúgio para civis. A protagonista desse cenário é Zoe (Sophie Skelton), uma ex-estudante de medicina que passa seu tempo procurando um modo de prevenir a infecção ocasionada pela mordida dos mortos-vivos. Ela tem essa chance quando, em uma ida à cidade em busca de suprimentos, seu grupo se encontra com um zumbi com inteligência, mas que também é uma figura assombrosa do passado da médica.

Se tem uma palavra que pode definir corretamente “Day of the Dead: Bloodline”, essa palavra é “constrangedor”. Nada funciona, desde o script até a pós-produção, começando pelo roteiro que transita entre o estúpido e o sem sentido, esbarrando pelo caminho na maior quantidade de clichês possível.

Começando com dois prólogos, sendo o primeiro deles especialmente desnecessário, o primeiro ato do longa é incompreensível. A direção de Hector Hernandez Vicens é confusa, e seus cortes frenéticos e câmeras hiperativas deixam as cenas de ação difíceis de serem assistidas, e o roteiro é de tamanha estupidez que chega a ser surpreendente.

Além de depender demais de diálogos expositivos para contar uma história que já foi contada diversas vezes, o roteiro também é cretino na construção de seu antagonista, Max (Johnathon Schaech), que é um ex-paciente que assedia e tenta estuprar Zoe, e que quando vira um zumbi, continua fissurado pela mesma. Também é deplorável o modo como outros personagens tratam o assédio, com a melhor amiga da principal dizendo para ela “ser mais forte” e logo em seguida a convidar para uma festa como se nada tivesse acontecido.

Os personagens, por sua vez, não passam de uma lista de nomes, já que nenhum deles tem caracterização o suficiente – incluindo a protagonista – suas motivações são mal desenvolvidas e as decisões que tomam são, em seu melhor, questionáveis. Por consequência, alguns deles acabam parecendo apenas caricaturas, principalmente Miguel (Jeff Gum), o tenente que está encarregado de supervisionar a base, que é o “militar durão burocrata” e uma tentativa fútil de simular o Capitão Rhodes, interpretado por Joe Pilato no filme de 1985.

Enquanto o “Dia dos Mortos” original também não é nenhum estudo de personagem incrível, os seus atores conseguem elevar o material escrito com seu carisma e performances únicas. O mesmo não pode ser dito de “Day of the Dead: Bloodline”, no qual os atores são tão monótonos que parecem mais mortos que os zumbis. Isso é especialmente ruim nas cenas de voice-over explicativo da protagonista, que se assemelha a um texto lido pelo Google Tradutor.

Nem os aspectos técnicos conseguem salvar essa calamidade, com a maquiagem e os efeitos de gore dependendo demais de retoques digitais, vistos através de uma montagem irregular, que mostra o mínimo possível para tentar disfarçar o seu visual amador. É chocante como, mesmo produzido mais de 30 anos depois, esse longa seja mais artificial do que o original.

É redundante dizer que esse remake é desnecessário, e provavelmente não é nenhuma novidade dizer que é tão entediante quanto é incompetente. Ele não se salva nem com cenas não-intencionalmente cômicas, que são poucas e cercadas de muito constrangimento para serem aproveitadas. “Day of the Dead: Bloodline” é uma produção sem propósito de existência, que será desprezada por fãs dos clássicos do Romero e que falha tanto como remake quanto como um filme novo.

Day of the Dead: Bloodline está disponível na Netflix.


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Oswaldo Marchi

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

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2 thoughts on “Crítica: Day of the Dead – Bloodline

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