Crítica: Depois da Tempestade

As relações humanas são sempre um desafio onde quer que se vá. E desse desafio nasce a curiosidade, as teorias, as pesquisas sobre como entendê-las. Não é à toa que muitas pessoas ficaram famosas tentando entender os laços sociais. Depois da Tempestade não tenta entendê-los, mas sim aprofundar-se nos relacionamentos.

Ryota é uma pessoa que pode ser sinônimo de fracasso. Seu casamento não deu certo, quis ser escritor e também não funcionou, é apostador inveterado e tem um emprego como detetive particular medíocre. À parte disso, é um pai que tenta ser presente, mesmo que não seja o melhor.

O dia de visita ao seu filho acaba sendo também o dia que um grande tufão está chegando a cidade e Ryota acaba envolvendo-se em situações frustradas que têm tudo para se tornar um grande círculo vicioso em sua vida e a repetição de uma história que tanto odeia: a sua própria e a de seu pai.

Por mais que o enredo concentre-se em Ryota, todos tem bons momentos em cena. O texto, além de bastante inteligente e sensível, dá oportunidade para que cada um tenha pelo menos uma boa cena, com um bom diálogo ali.

O roteiro não funciona apenas com as conversas. Ele todo é bem construido, com histórias marcantes e fluídas. Não há nenhuma parte forçosa para que saia algum resultado planejado anteriormente, é quase como uma situação que poderia acontecer na vida cotidiana de qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta.

As atuações também ajudam muito a fazer o filme funcionar. Hiroshi Abe está muito bem como o dúbio Ryota conseguindo fazer a transição entre o homem que tenta ser bom pai e a realidade do homem que na verdade acabou se tornando um grande fracasso. Kirin Kiki está excepcional como a mãe de Ryota, Yoshiko. Sua personagem vai das leves alfinetadas que uma matriarca dá em seus filhos até o drama de ter perdido o marido e estar envelhecendo sozinha, junto com o local onde mora. Yoko Maki, como a ex-mulher de Ryota, também brilha, trazendo uma interpretação muito coerente a personagem e a situação pela qual ela está passando.

Os planos tem uma tendência a serem mais contemplativos, trazendo momentos diários, atividades que em si não são importantes, mas misturam-se com diálogos e situações que trazem alguma relevância. O enquadramento, comumente, é aberto, mas com alguns momentos meio estranhos em que nem todos os atores estão bem focalizados (como é o caso de Hiroshi Abe que em algumas cenas tem sua cabeça cortada em planos abertos).

A direção de Hirokazu Kore-eda conseguiu equilibrar nesse projeto uma fotografia que funciona a maior parte do tempo, a trilha sonora emotiva e sutil que não atropela nenhuma cena, roteiro admirável e interpretações sensíveis, entregando um produto que funciona na maior parte do tempo.

Depois Da Tempestade estreia dia 17 de novembro em todo Brasil.

Crítica: Depois da Tempestade
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