Refilmagem do filme dinamarquês homônimo, “Depois do Casamento” é bastante fiel à narrativa de seu progenitor, com exceção da fundamental mudança no gênero de seus protagonistas. Em ambos os longas, um filantropo que dirige um orfanato na Índia é obrigado a viajar para seu país de origem a fim de garantir uma milionária doação a ser feita por um rico empresário. Chegando lá, como gesto de boas-vindas, o filantropo é convidado para o casamento da filha mais velha do empresário, onde descobre que não só o cônjuge do anfitrião é um companheiro de seu passado, como a própria noiva é, na verdade, sua filha biológica.

Nesse ponto, a inversão entre homens e mulheres mostra-se decisiva: no original de Susanne Bier, Jacob (Mads Mikkelsen) sequer sabia da gravidez de sua antiga namorada, muito menos da existência de uma criança; na refilmagem de Bart Freundlich, Isabel (Michelle Williams) havia voluntariamente entregado a filha para a adoção, sem saber, porém, que o pai da criança havia mudado de ideia e tomado o bebê para si. Dessa forma, apesar de ambos os longas abordarem um ajuste de contas com o passado, eles partem de perspectivas completamente distintas: enquanto para Jacob a existência de uma filha é um fato novo, para Isabel significa um confronto direto com uma escolha crucial de sua juventude.

Essa diferença de pontos-de-vista e, consequentemente, do caráter do próprio dilema central do filme garante que “Depois do Casamento” não se torne uma refilmagem totalmente desnecessária. Entretanto, à medida que a trama se desenrola, sente-se falta de uma maior independência em relação ao original, que faça do longa de Freundlich uma obra capaz de se sustentar sozinha, e não apenas uma versão menos bem-sucedida do filme anterior.

Pelo lado positivo, percebe-se que Freundlich (que além de dirigir, adaptou o argumento original de Bier e Anders Thomas Jensen) tenta trazer novos elementos e pontos de discussão para a sua versão da história. O fato de Isabel ter conscientemente dado a filha para a adoção torna a sua situação ainda mais complexa do que a de Jacob, do filme dinamarquês. Afinal de contas, essa escolha pode ser interpretada de duas formas: abrir mão do bebê foi o seu maior ato de caridade, uma vez que, assim, a criança poderia encontrar uma família que tivesse condições de sustenta-la; ou dar a filha para a adoção foi a forma encontrada por Isabel de não atrapalhar o seu trabalho humanitário, à época ainda incipiente. De uma maneira ou de outra, Grace (Abby Quinn) não deixa de representar um fechamento de ciclo para Isabel, que após passar décadas cuidando de crianças abandonadas ou entregues pelos pais, vê-se relacionando-se com a filha que ela mesma deixou para trás quando jovem.

Quanto à Theresa (Julianne Moore), a inversão de gênero também aplica novas interpretações para as escolhas da personagem, uma versão feminina do empresário Jörgen (Rolf Låssgard). No longa dinamarquês, Jörgen é apresentado como um homem que sente um amor genuíno por sua família, o que justifica as atitudes extremas que toma. Entretanto, Bier e Jensen não se privam de mostrar que há também um viés patriarcal em suas ações: sejam as opiniões homofóbicas, o gosto pela caça ou o desejo expansionista de sua empresa, Jörgen toma suas decisões a partir de uma posição de pai provedor. Amor para ele é garantir o sustento de sua família e a manutenção de uma figura masculina forte à frente do clã.

Em contrapartida, Theresa é desenhada como uma mulher bem-sucedida, de opiniões fortes, mas que mantém um espírito maternal puro que guia muitas de suas decisões ao longo do filme. Não é à toa que, ainda no início do longa, ao encontrar um ninho de pássaro cheio de ovos ao lado de uma árvore caída, ela decida levar o ninho para casa a fim de garantir a sua segurança. Além disso, a própria árvore é constantemente ligada à personagem de Theresa: uma estrutura sólida e poderosa, que acolhe bichos, plantas, ninhos (filha adotiva, empresa, marido), mas que ainda assim é suscetível à ação de forças externas que a derrubam.

Todavia, apesar dessas reinterpretações, “Depois do Casamento” tem dificuldades em se libertar completamente das amarras do filme original. Muito disso se deve à escolha de Freundlich de reencenar várias cenas do longa de Bier sem trazer nada de necessariamente novo, o que o põe muitas vezes em posição de desvantagem em relação à obra dinamarquesa. Defeitos do original permanecem (a personagem da filha é pouco envolvente e repetitiva), relações que foram bem trabalhadas por Bier e Jensen não são tão bem resolvidas agora (o reencontro entre Isabel e Oscar, seu antigo namorado, vivido por Billy Crudup) e, esteticamente, não está muito distante de um filme do Lifetime (a influência do Dogma 95 no longa de Bier, apesar de cair no exagero, trazia urgência e dinamismo necessários).

Dito isso, seria desmedido dizer que a refilmagem estadunidense é ruim ou desnecessária; ela é apenas imemorável. A mudança de gênero das protagonistas acarreta em discussões promissoras que nunca atingem todo seu potencial; esteticamente, não se destaca de inúmeros outros dramas parecidos; e apesar de entregarem boas atuações, todos do elenco já tiveram performances melhores. Mesmo assim, para quem não assistiu o filme de Susanne Bier (indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2007), o novo “Depois do Casamento” é uma boa porta de entrada.


Imagens e vídeo: Divulgação/Diamond Films


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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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