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Crítica: Midsommar – O Mal Não Espera a Noite

Avatar de João de Queiroz
João de Queiroz
20 de setembro de 2019 4 Mins Read

Midsommar poster

A primeira sequência de “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” começa com Dani (Florence Pugh) deixando uma mensagem na secretária eletrônica de seus pais, preocupando-se com o comportamento da irmã. Enquanto a voz da protagonista preenche a trilha sonora, a câmera desliza por uma cômoda cheia de retratos de família até chegar à cama dos pais de Dani, adormecidos. Algumas cenas mais tarde, porém, esse plano é re-contextualizado: os pais da protagonista, na verdade, estavam mortos. Sua irmã, num ato suicida, havia vedado as brechas de todas as portas e janelas e “puxado” para dentro de casa a fumaça de escapamento do carro da família, asfixiando todos.

A estratégia utilizada pelo diretor e roteirista Ari Aster nesse trecho inicial é bastante simples: situação aparentemente normal revela-se surpreendentemente trágica, apesar de todos os indícios de sua real natureza terem sido antecipados sem um pingo de discrição. Essa tática não é apresentada por acaso logo no início do filme; “Midsommar”, como um todo, é basicamente uma versão estendida de seus primeiros minutos.

Portanto, assim que as personagens entram no avião em direção à Europa, tudo indica que as coisas vão terminar mal. O aviso da aeromoça de “bem-vindos a Suécia” seguido de uma turbulência, enquanto o céu azul cheio de nuvens branquíssimas preenche a tela é um sinal mais do que claro disso. Apesar do clima ensolarado, das florestas incrivelmente verdes, das edificações em tons pastéis e das roupas estilo “hippie de boutique”, a Suécia de “Midsommar” – e mais especificamente Hårga, o vilarejo onde a maior parte do filme se desenrola – está longe de ser um comercial da H&M ou um mostruário da Ikea.

Esse paradoxo entre a imagem idealizada e o conteúdo distorcido é a mola propulsora que permite Ari Aster continuar a estratégia utilizada nas primeiras cenas, criando um paralelismo entre as histórias de Dani e sua irmã. Ao longo do filme, nota-se que parte do fascínio (e do medo) que a protagonista cria em relação a Hårga e seus costumes tem a ver com a visão de seus habitantes acerca da morte. Numa tentativa de explicar um dos rituais efetuados pelos moradores do vilarejo, envolvendo a crença de que o ciclo da vida termina aos 72 anos, uma mulher diz a Dani: “lutar contra o inevitável não faz bem ao espírito”.

A partir dessa afirmação, pode-se chegar a duas conclusões: não faz sentido Dani continuar se flagelando por um acontecimento do qual não tem culpa; e o suicídio de sua irmã foi a forma encontrada por ela de acabar com seu próprio sofrimento, do qual seus pais podem ter sido catalisadores ou não. Logo, entende-se que Hårga e a casa de subúrbio americano são apenas duas versões do paraíso transformado em inferno. O calvário vivido por Dani no vilarejo escandinavo talvez não seja muito distinto daquele vivido por sua irmã na casa dos pais; em ambos os casos, encaram-se questões mal-resolvidas e tomam-se decisões extremas.

Midsommar 6Entretanto, a morte da família não é o único obstáculo a ser superado por Dani em seus dias na Suécia. A aceitação da erosão de seu relacionamento de quatro anos (ou três e meio) com Christian (Jack Reynor) é o outro dilema que Hårga impõe à protagonista. Desde o início do filme, há indícios de que Christian está pronto para pular fora do namoro: seja por não ter falado da viagem à Dani ou por não saber ao certo quanto tempo estão juntos, fica claro que, caso não houvesse a questão familiar no meio, o relacionamento já teria acabado. Entretanto, a viagem para a Suécia joga luz sobre outro aspecto da personalidade de Christian: ele não é muito confiável.

O que melhor explicita esse traço é a sua amizade com Josh (William Jackson Harper). Apesar de saber desde o início que um dos planos de seu amigo na excursão era acumular material de estudo para a dissertação de mestrado – o que incluía a observação antropológica das festividades de Hårga –, Christian não apresenta o menor pudor em, impulsivamente, decidir estudar o vilarejo escandinavo também, sugerindo até uma colaboração minimamente duvidosa entre ele e o amigo. Obviamente, Josh fica ofendido não só pelo lado afetivo, mas também por toda questão racial envolvida (o clássico caso de um branco se aproveitando do trabalho de um negro); enquanto isso, Christian fica doído e se faz de dissimulado. Atitudes como essa, além de sua postura em relação ao namoro com Dani, põem a figura de Christian em xeque e expõem a sua toxicidade como amigo e companheiro.

Em determinado momento, Pelle (Vilhelm Blomgren), amigo responsável pela ida do grupo à Suécia e nativo de Hårga, diz que entende a dor de Dani, pois ele também perdeu os pais ainda novo, mas que, felizmente, ele encontrou no pequeno vilarejo pessoas que estavam dispostas a cuidar dele. Em seguida, ele pergunta à protagonista se ela acha que Christian realmente quer cuidar dela; Dani fica em dúvida. Atinge-se, portanto, o ponto nevrálgico da questão: todos, por mais independentes que sejam, procuram cuidado. Entretanto, poucos conseguem perceber quando cuidam demais ou são cuidados de menos, criando um ambiente insustentável. Apesar de seus métodos deturpados e objetivos difusos, Hårga quer cuidar de Dani. Só resta saber se ela está preparada para ser cuidada por Hårga.


Imagens e vídeo: Divulgação/Paris Filmes

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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