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CríticaFilmes

Crítica: Elle

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Convidado Especial
14 de fevereiro de 2017 3 Mins Read
Nada de charme francês

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A experiência do diretor holandês Paul Verhoeven (“RoboCop”, “Tropas Estelares”) em uma coprodução envolvendo França, Alemanha e Bélgica, parece ter acertado no método narrativo ao contar sobre um medo que afeta todas as mulheres, o estupro. Quando menciono o método narrativo, quero dizer que em sua forma estrutural a história é interessante, mas ao resolver enxergá-la apenas como um acontecimento isolado que tenha como evento catalisador um ato desta natureza, “Elle” (Ela em português) não seria o melhor exemplo, bem longe disso.

Michèle (Isabelle Huppert) tem 49 anos, vive em Paris e possui uma vida atarefada como diretora em uma desenvolvedora de jogos eletrônicos, contudo, no núcleo familiar convive com uma mãe que não se preocupa em poupar-se dos prazeres da vida, um pai serial killer preso a décadas e um filho que parece não entender muito bem sobre suas responsabilidades como adulto. Logo nos primeiros minutos do filme, quando um homem mascarado invade a sua casa, agredindo-a e posteriormente praticando o estupro, as atitudes de Michèle perante aquele fato deixam o telespectador desconcertado. O que em algum momento torna-se extremamente contraditório em nossa realidade, se a questão do estupro for problematizada, “Elle” não passaria um bom exemplo de como agir, o que pode afetar negativamente boa parte do público feminino que assistir ao filme. A atuação de Huppert é impressionante, as atitudes tão naturais em gestos e expressões tornam aquele problema muitas vezes secundário, e não por acaso venceu na categoria de Melhor Atriz no “Globo de Ouro” em janeiro de 2017.

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A já mencionada coprodução do longa construiu uma boa variedade narrativa bem estruturada durante os 130 minutos de tela, passando pela forma dramática e inesperada como a protagonista convive com o ocorrido, seguindo para a sua relação profissional em um meio predominantemente masculino e os inacabáveis conflitos familiares. Michèle opta por não denunciar às autoridades o crime que sofreu, mas passado o período de indiferença ela começa a criar um sentimento de “pseudo” síndrome de Estocolmo pela situação enquanto prossegue sua vida profissional, familiar e sexual. Se suas atitudes estão certas ou erradas, primeiro precisamos perceber que existe uma coerência naquilo tudo, muitas vezes pode parecer que Michèle gostou do que aconteceu, em outras fica nítido que ela não se importa, porém, a personalidade da personagem é forte e ela sabe exatamente o que está fazendo.

Uma ótima demonstração quase que teatral da interação entre os personagens está na cena onde todos os personagens do filme se encontram em um jantar na noite de Natal, todos dentro da mesma casa e sentados na mesma mesa. Os planos as mostram ações de cada personagem separadamente, outras que envolvem apenas alguns deles, mas sempre com o foco em Michèle. Os diálogos remetendo a uma comédia natural originando do acaso de cada situação, lembrando muito outro filme interessante, “Deus da Carnificina” (2011).

Um ponto curioso dos bastidores de “Elle” fica por conta do produtor Saïd Ben Saïd, que também participou do filme brasileiro “Aquarius”, do excelente diretor brasileiro Kléber Mendonça Filho. “Elle” teve sua estreia na Europa durante o Festival de Cannes em 2016. O filme recebeu dezenas de premiações por diversos festivais espalhados pelo mundo, o mais relevante deles fica por conta na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Globo de Ouro 2017. Aqui no Brasil, o filme estreou em novembro de 2016. Vale lembrar também que a produção é baseada no livro “Oh…” de 2012, do escritor francês Philippe Djian.


Por Guilherme Santos

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