Um ferreiro faz um pacto com o diabo, mas consegue enganar a besta e sair do acordo sem pagar sua parte da barganha. Não tão famosa quanto “Rapunzel” ou “João e Maria”, essa é a fábula europeia que serve de inspiração para o longa homônimo “Errementari: O Ferreiro e o Diabo”. Realizada no País Basco, região dividida entre a França e a Espanha, mas que tem sua própria língua e cultura, a produção é uma fantasia sombria com uma identidade bem diferente, que está sendo distribuída mundialmente através da Netflix.

A história contada se passa no século 19 e se inicia com a chegada de um oficial do governo (Ramón Aguirre) em uma vila basca pacata, com o objetivo de investigar Patxi (Kandido Uranga), o ferreiro local que, desde o suicídio de sua esposa, tem vivido em isolamento na sua casa no meio do bosque e é alvo de diversos boatos que circulam no vilarejo. Quando Usue (Uma Bracaglia), uma menina órfã criada na igreja, entra na propriedade desse homem misterioso, ela sem querer toma parte em libertar um demônio (Eneko Sagardoy), que era mantido em cativeiro ali, e agora deve ser novamente capturado.

Com referências visuais que vão desde “Haxan” (1922) a “O Labirinto do Fauno” (2006), a direção, do iniciante Paul Urkijo, conta a história de uma maneira bem versátil, desde sua primeira cena em animação, ao desenvolvimento da trama com tons de mistério e fantasia sombria, às sequências mais surreais e perturbadoras no fim do longa. Urkijo usa bem do foco e de enquadramentos diferentes para causar um estranhamento, mas se destaca também pelo seu uso sensato de sombras, que são utilizadas em mais de uma ocasião para mostrar algo grotesco acontecendo de maneira indireta, dando mais espaço para a imaginação da audiência, ao mesmo tempo que evita o uso de computação gráfica de qualidade questionável.

Tudo isso é visto através de uma fotografia que, por muitas vezes, é monótona, mas que funciona para criar a atmosfera de “conto de fadas” e também para mostrar o belo cenário do País Basco. Essa ambientação de século 19 também se deve ao design da produção, que tem um aspecto um pouco gótico, semelhante aos filmes fantásticos de Guillermo Del Toro. É particularmente notável o modo como prefere utilizar maquiagem e fantasias para representar os seus demônios, que têm características animalescas, ao invés dos tão infames efeitos digitais.

Com uma produção predominantemente basca, não é surpresa que quase todos os atores do projeto são locais também, portanto, não tem nenhum nome muito conhecido no elenco. Enquanto isso funciona para dar um ar de realidade ao longa, também prejudica um pouco com algumas atuações de apoio que deixam a desejar, principalmente dos atores mirins, exceto Uma Bracaglia que consegue se virar bem em seu papel. Eneko Sagardoy também chama a atenção na sua interpretação do demônio Sartael, que se porta de um modo debochado e afrontoso, mas que também pode ser simpático, um feito notável para uma criatura de pura maldade.

O que amarra todos esses pontos é um roteiro que começa devagar, mas que floresce em sua segunda metade. O seu maior problema são algumas reviravoltas óbvias e uma construção que às vezes prejudica o terror das cenas, por exemplo, uma longa sequência na qual Usue se esconde de Patxi  que não tem muito tensão, pois já foi estabelecido anteriormente que o ferreiro não é um personagem mal-intencionado. O script também tem momentos pontuais de humor negro, que parecem contribuição do produtor Álex de la Iglesia, um  cineasta espanhol conhecido por seus filmes nesse gênero.

Errementari – O Ferreiro e o Diabo” não é uma produção muito original, mas tem um estilo de dark fantasy bem-vindo e é criativa o suficiente para se destacar em meio as demais produções Original Netflix.


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Oswaldo Marchi

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

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