Crítica: Estrelas de Cinema Nunca Morrem

Gloria Grahame caiu no esquecimento. Das grandes atrizes dos anos cinquenta de Hollywood talvez não seja hoje as das mais lembradas nem das mais vivas na memória coletiva, e postos em perspectiva, os anos dourados da sua carreira não são tantos, com seus filmes essenciais situando-se entre meados da década de 1940 e meados da década seguinte. Durante esse tempo, e entre outros filmes marcantes, destacam-se as suas parcerias com um punhado de realizadores, com quem trabalhou mais de uma vez: Vincente Minnelli, com “Assim Estava Escrito” (o único Oscar da sua carreira, como melhor atriz coadjuvante) e “Paixões Sem Freios”, Fritz Lang, que a escolheu para “Os Corruptos”“Desejo Humano” e, sobretudo, Nicholas Ray, com quem filmou “A Vida Íntima de Uma Mulher”“No Silêncio da Noite”, e o rejeitado “Macao”, e comquem foi, breve e turbulentamente, casada.

A sua presença era quase sempre incendiária, uma beleza pouco ortodoxa, sugerindo um erotismo incomum (e que Lang aproveitou, sobretudo em “Desejo Humano”, para encarnar uma espécie de vulgaridade amoral), e uma mescla de fragilidade e violência latente. Como se vê muito bem naquele que é porventura – pelo menos para os cinéfilos – o título mais mítico da sua obra, esse “No Silêncio da Noite” de Nick Ray, e onde, através da relação entre Grahame e Humphrey Bogart, fez passar um eco da relação dos dois enquanto casal. Foi por Grahame que foram escritos e ditos os diálogos mais lancinantes do cinema americano, como aquele célebre “nasci quando ela me beijou, morri quando ela me deixou, vivi durante algumas semanas enquanto ela me amou”, que Bogart dizia e era como se fosse Ray falando por meio do personagem.

É mesmo esse filme o primeiro a ser lembrado em Estrelas de Cinema Nunca Morrem”, quando na introdução – uma envelhecida Gloria (Annette Bening) no seu camarim – vemos em grande plano um objeto (uma cigarreira, salvo erro) que tem gravada uma dedicatória de Bogart. Não haverá muitas mais evocações cinéfilas explícitas ao longo do filme de Paul McGuigan, para além de um punhado de referências nos diálogos e de uma sequência de “Naked Alibi” (um filme de Jerry Hopper em que, em 1954, Gloria contracenou com Sterling Hayden), e não se trata de um ensaio sobre o carácter iconográfico de Grahame ou da Hollywood clássica, embora um bocadinho mais de esforço neste sentido não fizesse mal nenhum. “Estrelas De Cinema Nunca Morrem” é, antes, um relato dos últimos dias de Gloria Grahame, passados, sobretudo, na Inglaterra e em palcos de teatro, no princípio dos anos 1980 (a atriz morreu em 1981, aos 57 anos), contados a partir da perspectiva do último namorado, o jovem ator Peter Turner (Jamie Bell), cujo relato autobiográfico é adaptado pelo argumento.

Apesar de algumas ideias competentes, como a utilização de uma simulação de “transparências” (um dos procedimentos típicos do cinema americano dos anos 1950) para dar o “fundo” de algumas cenas (sobretudo as californianas, sempre banhadas numa atmosfera de “estúdio”), e certa tonalidade a Sunset Boulevard na relação entre a atriz envelhecida e um homem muito mais novo do que ela. O único aspecto notável de “Estrelas de Cinema Nunca Morrem” tem um nome: Annette Bening. Imaginamos que tenha passado a pente fino a filmografia completa de Grahame, ou quase, porque há certos momentos, não muitos, mas os suficientes, em que a “suspensão da descrença” avança e, através do trabalho que Bening faz com o rosto e com a voz, é como se desaparecesse a “composição” e acreditássemos, durante alguns segundos ou frações de segundo, que quem está ali é mesmo a Gloria Grahame dos últimos dias. Talvez seja imperdoável que uma figura tão cheia de contornos e uma história rica em detalhes redundem num filme tão rotineiro, mas a metamorfose de Bening quase salva o dia.

 

Crítica: Estrelas de Cinema Nunca Morrem
6Pontuação geral
Votação do leitor 1 Voto
6.2