Crítica: O Topo da Montanha

Imagem: Divulgação/O Topo da Montanha/BR ProdutoraImagem: Divulgação/O Topo da Montanha/BR ProdutoraImagem: Divulgação/O Topo da Montanha/BR ProdutoraImagem: Divulgação/O Topo da Montanha/BR ProdutoraImagem: Divulgação/O Topo da Montanha/BR ProdutoraImagem: Divulgação/O Topo da Montanha/BR ProdutoraFoto: Jorge Bispo - DivulgaçãoFoto: Divulgação
A história do ícone Martin Luther King Jr. vem encantando plateias lotadas e ainda precisa ser assistida por um mundo inteiro tamanha sua importância e atemporalidade


O espetáculo “O Topo da Montanha”, dirigida por Lázaro Ramos tem tido uma bela trajetória, desde sua estreia em São Paulo no ano de 2015,  já foi vista por cerca de 100 mil espectadores, além de ter recebido uma indicação ao Prêmio Shell, de melhor atriz, para Taís Araújo. A peça já percorreu 11 estados brasileiros e visitou 15 cidades, sempre com sessões esgotadas.

É de fato revigorante assistir bons atores em cena. Para fazer jus ao herói Martin Luther King Jr. ninguém melhor do que o próprio diretor, Lázaro, que dá vida ao pastor protestante e ativista político  um dia antes de seu assassinato, cometido na sacada do Hotel Lorraine, do quarto 306 – na sequência do seu último grande discurso (I’ve Been to the Mountaintop ) – é nesse contexto que ele conhece Camae, encenada por Taís Araújo, a misteriosa e bela camareira em seu primeiro dia de trabalho no estabelecimento. O diálogo entre os dois é cheio de provocações, suspense e mistério. Ela faz com que ele se lembre de que é humano. Ambos estão inteiros, simples e de fato vivenciando aquele momento, não é possível perceber que aquilo foi premeditado, a impressão que se tem é de que a plateia assiste ao presente, e isso, por si só, já torna uma peça muito boa.

Por meio do humor, da emoção e da profunda atemporalidade do texto, o espetáculo faz qualquer público rir, chorar e refletir profundamente. O texto original de Katori Hall, traduzido por Silvio Albuquerque, faz agradar a brasileiros ainda que muitos termos americanos tenham sido mantidos porque as questões políticas, sociais e de amor prevalecem. Os efeitos da projeção visual – de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca – contribuem de forma potente, ao mesmo tempo em que não se tornam bengalas. Utilizar estes recursos no teatro pode causar disparidades entre o que está sendo encenado, o que definitivamente não acontece nesta peça – o momento em que é utilizado com mais intensidade é emocionante, com aspecto de sonho e só envolve quem assiste ao invés de distanciar. O cenário de André Cortez é esplêndido, de uma genialidade única – afinal toda a encenação acontece apenas dentro de um quarto de hotel. Os elementos em cena são realistas ao mesmo tempo em que estão a serviço dos componentes lúdicos. A trilha sonora de Wladimir Pinheiro está na medida, de forma que não rouba o protagonismo dos atores que contam a história.

Um dos fatores mais encantadores, além da grande homenagem em si é colocar o líder como um ser humano, gente como a gente, cheio de incertezas, medos, falhas, pecados e que ainda assim lutava com afinco pelo o que acreditava. É inquestionável que ele foi alguém acima da média, mas uma das principais mensagens do espetáculo é que o “bastão” pode ser carregado por qualquer um que tiver vontade de fazer a diferença. Com emoção, no dia assistido em questão, Lázaro proferiu as seguintes palavras:

“Você não precisa ser um ativista americano para fazer alguma coisa, basta olhar para as suas relações e cuidar do próximo no seu dia a dia.”

Apesar do texto tratar de assuntos difíceis, violentos e que parecem não ter solução, é preciso reerguer a cabeça e seguir em frente fazendo o mínimo. O macro só se transforma a partir da ação individual, por isso, para mudar o mundo, é necessário mudar a si próprio antes de tudo. Se até Martin e Camae, cheios de vícios, fizeram história o que pode te impedir? Fica aí a reflexão.


Por Rayza Noiá

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