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Crítica

Crítica: Eu Me Importo

Eu Me Importo 3
Vídeo e Imagens: Divulgação/Netflix

Um bom jeito de desvirtuar a fórmula dos personagens bondosos e honrados que Hollywood desenvolveu tão bem desde seu início – aqueles que apanham da vida e precisam superar obstáculos para finalmente vencer como cidadãos exemplares– é escolher contar uma história usando um vilão como protagonista. É claro que Hollywood acaba encaixando sua fórmula mesmo nesses casos, transformando um pretenso mau-caráter em um herói virtuoso, conforme ele vai aprendendo com as várias lições durante sua jornada. São as famosas histórias morais.

A vilã protagonista está no novo filme da Netflix, “Eu Me Importo”, e se chama Marla Grayson (interpretada com a habitual qualidade de Rosamund Pike), uma vigarista que usa da lei para roubar dinheiro de idosos incapazes. Grayson, junto de sua namorada Fran (Eiza González, em um desempenho bastante competente) e de outros comparsas, ganha a guarda legal de idosos doentes e que não possuem parentes ou a atenção de seus familiares, e os interna em uma casa de repouso. Ela então toma os bens e passa a receber pagamentos mensais dos “pacientes” pela prestação de seus serviços de guardiã. O incidente incitante então se apresenta quando Grayson faz mais uma vítima: a pacata e gentil Jennifer Peterson (Dianne Wiest). Peterson é mãe do mafioso russo Roman Lunyov (Peter Dinklage, levemente cômico e, ao mesmo tempo, sombrio), que fará de tudo para tirá-la das garras da vigarista.

A diferença da personagem principal de “Eu Me Importo” para os de outros filmes com a mesma proposta é que ela não está seguindo um caminho de aprendizado ou de redenção. A riqueza é seu objetivo, e nem as ameaças de morte vindas da máfia russa a desviarão dele. Isso faz com que o espectador não saiba para quem torcer, já que todos são execráveis em suas ações. Não é possível separar os criminosos do submundo com aqueles que agem às claras em uma sociedade em que só o dinheiro parece importar. O roteiro de J Blakeson, que também se sentou na cadeira de direção, não vai para o rumo das banalidades dos filmes policiais ou para os de um simples suspense. Ele explora fundo algo mais importante: quanto vale a vida das pessoas para a atual dominação capitalista?

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Imagem: Divulgação/Netflix

Para a capitalista extremista Grayson, não vale nada. Ela é a predadora que devora as lebres com facilidade. Sua personalidade matadora é externada pelo vestido vermelho que usa nas vezes em que vai ao tribunal para angariar a guarda de mais um idoso indefeso, e pelos seus treinos na academia, onde ela é sempre coberta por uma luz intensa e quente. Na esteira ou em um aparelho que simula remadas, seu olhar determinado é sempre fixo e para frente, como se nada pudesse pará-la. O estilo de Lunyov é diferente, mesmo sendo igualmente matador. Sua calma esconde a ira, que só vem à tona quando é contrariado. Até dá para se afeiçoar com o sujeito em um primeiro momento, afinal sua mãe foi sequestrada e está sendo praticamente torturada, no entanto, quando ele recebe as fotos de mulheres feitas de “mulas” pela sua organização criminosa, e as olha com desdém, como se estivesse vendo apenas produtos inanimados, logo a afeição se esvai. “Eu Me Importo” se sai bem ao contar história desses dois vilões e como seus mundos se chocam para caracterizar uma amostra micro do que acontece em grande escala em uma realidade cada vez mais voltada à riqueza, mesmo que essa seja conseguida de maneiras escusas.

Há, contudo, um único problema, que aparece logo no início do longa, e que deixa evidente como será a conclusão da trama quando se nota que a personagem principal não mudará suas atitudes. Os mais atentos saberão em algumas cenas iniciais o que vai acontecer nos minutos finais, que não se tornam menos relevantes por causa disso, só causam menos impacto do que poderiam. Essa percepção não significa um maior conhecimento sobre cinema, é apenas a consequência de anos em que o artificio em questão é usado nos filmes. Independentemente disso, Blakeson faz um bom trabalho no texto e na direção, surpreendendo positivamente com sua obra em meio a um catálogo tão esgotado por repetições, como é o da Netflix.

“Eu Me Importo” já está disponível na plataforma.

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Eu Me Importo 3
Crítica: Eu Me Importo
Sinopse
Prós
Filme desvirtua a narrativa clássica do Mocinho contra o Vilão
Ótimas atuações
Roteiro bem amarrado
Contras
Há um ponto fraco no roteiro que envolve a conclusão do longa que pode estragar a experiência
4
Nota
Written By

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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