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Crítica

Crítica: Família Submersa

“Veem como tentam se juntar? Como se perseguem?”

Imaginem duas gotas: cada uma com sua pressão atmosférica. A mais volátil tentará se juntar à menos. Unidos em uma solução, solvente e soluto dificilmente evaporam. Quer dizer, o processo é mais complicado. A evaporação, afinal, ocorre melhor em isolamento.

Pausa na explicação. O presente texto não trata de química – sequer o pretende. Possivelmente há mesmo um equívoco nos dados anteriores. Pouco importa. A gota mais volátil, na verdade, é Marcela (Mercedes Morán), protagonista de “Família Submersa” (Familia sumergida, 2018). Como a partícula da aula do filho, a fragilizada mãe precisa de um amparo.

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Tal suporte ausenta-se do núcleo familiar. “Conto com você nessa vida”, declara a personagem ao marido. Jorge (Marcelo Subiotto), porém, desaparece. Durante quase a totalidade da projeção, o espectador nem ao menos ouve seu nome. Quem poderia, então, compartilhar o luto? Talvez Diego (Diego Velázquez), o meio-irmão. Unidos por um princípio – a morte da irmã -, os dois se afastam por um “meio” – como ela faz questão de destacar.

Sim, Rina faleceu. O luto da irmã, no entanto, não condiz com a vida finada. Nesse sentido, direção de arte e figurino marcam uma diferença. Os aposentos de Rina são vermelhos, sabe-se desde a primeira cena. Ganha tons azulados, por outro lado, o apartamento de Marcela. Vívida como o fogo, ou sufocada em uma submersão: as cores distinguem as duas irmãs.

Como superar o sufocamento e herdar a vividez? Esse desafio enfrenta a protagonista. Toda a família está morta. Não há a quem recorrer. Ou há? Em uma virada inesperada, o filme caminha para o delírio. A personagem conversa com tias, mas um incômodo uníssono coloca as imagens em suspeição. Familiares desenrolam-se de cortinas como borboletas de casulos. Precisaria Marcela de uma metamorfose?   

Viva como borboleta, a antiga lagarta encontra-se nos braços de um novo amor. Nesse momento, contudo, inexiste qualquer filiação realista. A dúvida já se tornou modus operandi do longa-metragem. Estaria a protagonista em um processo de cura ou de ensimesmamento? É então que reaparece, como um choque, a figura do marido.

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Jorge chega de azul. Em um breve diálogo, uma interrogação paira sobre seu papel. Além de errar a idade do filho, o homem sequer percebe que a filha havia se mudado. Azul como a submersão, Jorge sufoca Marcela – não Jorge em-si, mas Jorge enquanto figura máxima do núcleo familiar. Marcela quer ser vermelha. Veste vermelho. Come uma maçã vermelha. Fuma um cigarro. Chama de esperança, o fogo incendeia e desestrutura as bases sobre as quais se assentam as relações com o marido, os filhos e o meio-irmão. Subitamente desimbuída da vividez de Rina, ela apaga o objeto flamejante. Volta à sala, onde bailam seus entes. Embora hesite de início, entrega-se, por fim, à dança.

Estreia de María Alche na direção, “Família Submersa” preserva uma certa tradição do cinema argentino. Como Lucrecia Martel, com quem trabalhou em “A Menina Santa” (La Niña Santa, 2004), Alche infiltra-se no âmago da classe média para em seguida desfazer suas aparências. E ninguém melhor que Mercedes Morán (“O Pântano”) para isso.

* O filme estreia dia 4 de abril, quinta-feira.

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Fotos e Vídeo: Divulgação/Esfera Filmes

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Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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