Durante um passeio a alguns pontos turísticos da cidade de Sintra, em Portugal, Jimmy e Michel (Brendan Gleeson e Pascal Greggory, respectivamente) decidem dar uma volta em uma arborizada e bucólica trilha. Enquanto discutem sobre o estado de saúde e o comportamento teimoso de Frankie (Isabelle Huppert), cônjuge do primeiro e ex-mulher do segundo, Michel comenta: “é impressionante como as pessoas não querem ver o que está bem na frente de seus olhos”. Apesar de ele afirmar isso referindo-se à atitude aparentemente despreocupada da protagonista em relação à sua morte iminente, a fala de Michel pode ser aplicada a basicamente todas as personagens que povoam “Frankie”, novo longa do diretor estadunidense Ira Sachs.
Apesar de ser nomeado a partir da personagem de Huppert, que é quem reúne todo o elenco em Sintra para uma última viagem com aqueles que lhe são caros, Sachs e seu colaborador habitual Mauricio Zacharias constroem, de fato, um filme de conjunto, que pula de figura em figura, acompanhando os dilemas que se escancaram durante seus promenades sem rumo pela charmosa cidade portuguesa. Entretanto, essa mesma intenção menos centralizada na figura de Frankie é o que acaba acarretando em muito da irregularidade que prejudica o produto final. Apesar de momentos inspirados aqui e acolá, no geral, esse é, sem dúvidas, um trabalho menor do diretor.
Conhecido por seus longas centrados na vida da classe média alta liberal nova-iorquina, em “Frankie”, Sachs, de certa forma, avança nos temas que lhe interessam ao mesmo tempo em que sai de sua zona de conforto. Por um lado, toda a questão de personagens sendo obrigadas a reavaliar sua vida em função de uma complicação inesperada é bem típica do diretor – o estado terminal de Frankie e suas repercussões aproximam-se do casamento posto à prova por razões financeiras em “O Amor É Estranho” e da amizade juvenil construída (e dissolvida) pela especulação imobiliária e pela gentrificação em “Melhores Amigos”.
Por outro, a troca do Upper West Side e do Brooklyn por Sintra é uma enorme mudança de cenário. O roteiro até aponta isso através de uma fala de Ilene, personagem de Marisa Tomei, em que ela expressa o desejo de se mudar de Nova York, uma vez que não é mais a cidade pela qual se apaixonou – tudo está muito caro, as ruas estão muito cheias, os seus points favoritos fecharam –, e ir para um lugar como Sintra. Até que ponto isso reflete uma vontade própria de Sachs não tem como saber, porém não é difícil perceber uma tentativa sua em reproduzir os seus habituais microcosmos nova-iorquinos na serra portuguesa – como se buscasse na periferia da Europa a vida comunitária que está sendo deixada de lado na metrópole estadunidense.
Todavia, é palpável a falta de conhecimento e vivência de Sachs nesse universo específico. Em certa medida, essa espécie de “olhar estrangeiro” pode ser justificada pelo fato do filme ser centrado em um grupo de turistas (franceses, estadunidenses, ingleses) confrontados por uma situação alienante (o reconhecimento da mortalidade), dando a essa sensação de distanciamento uma explicação subtextual minimamente convincente. O maior problema, porém, é que, ao contrário de suas crônicas nova-iorquinas, as próprias relações interpessoais parecem um tanto estranhas, como se esses indivíduos não se conhecessem tão profundamente quanto o roteiro quer que pareça. Isso se deve, principalmente, à construção um tanto esquemática dos diálogos, que parecem demasiadamente escritos, e à mise-en-scène por vezes engessada: ambas características estranhas ao cinema de Sachs, marcado por um calor humano e uma certa espontaneidade que, quando se fazem presentes em “Frankie”, indicam o potencial do filme que poderia ter sido.
Esse longa hipotético é sentido, particularmente, em um par de cenas protagonizadas por Huppert, nas quais Sachs permite uma maior vulnerabilidade à personagem e mais liberdade à interpretação da atriz francesa. A primeira ocorre mais para o final da projeção, quando finalmente Huppert e Tomei se encontram (duas excepcionais atrizes, diga-se de passagem), e Frankie revela à amiga Ilene que ela está com câncer e tem pouco tempo de vida. À certa altura da cena, a protagonista pede apenas uma coisa à amiga: que ela não chore, pois ver os outros chorando é a parte mais difícil de todo o processo. Enquanto diz isso, a própria Frankie tem dificuldade de segurar o choro, como se quisesse desabafar, mas ao mesmo tempo, não quer dar o mau exemplo. Em seguida, as duas personagens seguem seu caminho, Frankie à frente, e Ilene, aproveitando a desatenção da amiga, aproveita para soltar as lágrimas que não pôde soltar no momento da revelação da má notícia, uma vez que não queria magoar a amiga e desrespeitar aquele que pode ser um de seus últimos pedidos.
A segunda cena ocorre antes no filme, mas é, provavelmente, o seu momento mais simples e poderoso. Durante um passeio pela floresta, Frankie encontra, por acidente, uma casa, na qual está acontecendo um aniversário. Prontamente, ela é notada por uma das convidadas, que a reconhece como Françoise Crémont (nome pelo qual a protagonista é conhecida do grande público), a renomada atriz francesa. Frankie é, então, convidada a participar do evento e, após uma certa relutância, acaba cedendo aos desejos da fã. Momentos depois, a protagonista está sentada em uma mesa cheia de comes e bebes, ao lado da aniversariante, uma senhora portuguesa de 88 anos de idade. Na hora do parabéns, a velha agradece a todos, mas especialmente, a Frankie que “deixou o seu aniversário muito mais bonito”. Enquanto isso, a atriz francesa parece “desligada” de tudo, deixando-se impactar pelas palavras da senhorinha e percebendo, pela primeira vez, que ela nunca vai chegar aos 88 anos e, até mesmo, pode muito bem não estar viva até o seu próximo aniversário. É um momento impactante, com tudo que o espectador precisa saber sobre a vulnerabilidade de Frankie magistralmente expresso pela expressão facial e o olhar de Isabelle Huppert.
Essas duas cenas funcionam como um ótimo pay off à toda construção feita por Sachs e Huppert à protagonista. Em comparação com as outras personagens – e até mesmo com o estilo em geral adotado pelo filme –, Frankie se destaca por possuir traços que chegam às raias do camp, como se ela estivesse, ou melhor quisesse, estar destacada do universo que a circunda. Não à toa, Isabelle Huppert chega a ter uma figurinista só sua, como forma de separar Frankie das outras personagens e ressaltar a sua atitude em encarar a própria morte como um último ato de sua carreira, ao invés de assumi-la pelo que é. Logo, os vestidos em cores fortes (laranja, roxo, amarelo), os óculos escuros, os tamancos (usados para andar em ladeiras de paralelepípedo!) são a forma encontrada pela personagem para transformar-se em ícone, imortal.
Porém, como a crítica Susan Sontag já apontava, “sempre que há evolução do personagem, o camp se reduz” (Notas sobre o camp, 1964), isto é, a partir do momento em que camadas e traços de vulnerabilidade lhe são acrescentados, ele perde em teatralidade e “intensidade” – o que parece ser o objetivo de Sachs aqui. À medida que Frankie dá sinais de não aceitar tão bem assim o seu estado de saúde e se apercebe da impossibilidade de manipular tudo e todos ao seu redor, a figura de diva inabalável aos poucos dá lugar ao de mulher com medo do fim inescapável. Ao tentar encenar os seus últimos momentos, Frankie não percebe o que “estava bem na frente de seus olhos”, seja em relação a si mesma ou aos estratagemas sem sentido em que tenta incluir seus familiares e amigos.
Por isso, é um tanto decepcionante que o roteiro de Sachs e Zacharias faça tanta questão de não ser tão centrado na figura de Frankie quanto se esperaria. Apesar de uma forma ou de outra todas as personagens estarem, mais ou menos intensamente, ligadas a ela, há núcleos que justificam suas tramas “independentes”, enquanto outros parecem supérfluos. Em especial, Jimmy nunca consegue ser melhor desenvolvido, dificilmente superando o arquétipo do “homem triste”, apesar do desempenho esforçado de Brendan Gleeson; e as tramas do casal Sylvia e Ian (Vinette Robinson e Ariyon Bakare, respectivamente) e de sua filha Maya (Sennia Nanua), apesar de possuírem um contraponto interessante entre si, parecem servir apenas para encher linguiça. Com isso, “Frankie” termina por ser um filme que, por mais que tenha bons momentos, não consegue ser plenamente satisfatório.
Imagens e vídeo: Divulgação/Paris Filmes
Quer estar por dentro do que acontece no mundo do entretenimento? Então, faça parte do nosso CANAL OFICIAL DO WHATSAPP e receba novidades todos os dias.
Sem comentários! Seja o primeiro.