O ruim sempre pode piorar
 
Se você foi ao cinema nas últimas semanas, provavelmente assistiu ao trailer de “Gênios do Crime”, que é um filme de comédia pastelão sobre o segundo maior roubo realizado nos Estados Unidos, na década de 90. Nele, temos um elenco famoso por produções do gênero e um diretor relativamente experiente quando se trata de comédias, não necessariamente boas.
 
Dave Ghantt (Zach Galifianakis) trabalha em uma empresa de segurança que transporta milhões de dólares em carros-fortes. Por ser uma pessoa relativamente responsável (mas também completamente atrapalhado), ele é o único que tem a chave do cofre por acharem que jamais fosse capaz de assaltar a própria empresa onde trabalha. Mesmo noivo e de casamento marcado com Jandice (Kate McKinnon), ele se apaixona pela “descolada” colega de trabalho Kelly (Kristen Wiig). Depois de ser despedida, Kelly começa a se envolver com uma turma que não é das melhores, onde o cabeça é Steve Chambers (Owen Wilson), que a convence a jogar seu charme para cima de Dave para que ele roube 17 milhões de dólares do seu trabalho.
 
O roteiro, baseado numa história real, escrito por Emily Spivey, Chris Bowman e Hubbel Palmer, tem alguns pontos interessantes, mas não decola em momento algum. O fato de ter escolhido uma trama policial, que poderia render um bom filme de ação, para se transformar em uma comédia, é o marco mais importante de seu desenvolvimento, que mistura romance, ação e humor.
 
Na direção de Jared Hess não é possível entender se ele estava realmente fazendo cinema ou uma produção novelesca dos anos 90. Se sua conduta era essa, seu trabalho foi bem realizado, mas se não era, vemos um marasmo de marcações errôneas e de uma comédia mascarada à deriva, na expectativa de tirar uma gargalhada honesta, usando de maneirismos mais do que batidos.
Credit: Glen Wilson Copyright: © 2014 Armored Car Productions, LLC 
Geoff Zanelli, que é responsável pela delicada e primorosa trilha sonora de “A Estranha Vida de Timothy Green” (2012), apresenta provavelmente nada além do que lhe foi requisitado: composições batidas, onde é quase explícito “agora o vilão faz o plano”, “agora ele está apaixonado”, “agora vamos ter a reviravolta” e assim vai se aplicando à trama, sem nada a agregar e/ou agraciar nossos ouvidos.
 
Falando do elenco, o Owen Wilson é ele mesmo na versão caipira, enquanto Mary Elizabeth Ellis, como sua mulher, se destaca nas pouquíssimas chances em que aparece na trama. Leslie Jones, que vinha saturando a interpretação nigger, conseguiu dar um bom tom à detetive. O assassino Mike McKinney, vivido por Jason Sudeikis, cai de paraquedas, morre na praia e nem a tentativa de bromance estabelecida na história consegue dar gás, porém, sua montagem de personagem é uma das melhores do elenco, ainda que canastrão.
 
Já o protagonista Zach Galifianakis faz o de sempre, em todos os filmes que você provavelmente já assistiu, não há novidades, não há frescor, mas não neguemos que ele sabe o que está fazendo. A Kelly de Kristen Wiig chama mais atenção no início do filme e quando seu personagem deveria crescer simplesmente se perde e vira uma “configuração” presente apenas para se concluir o que foi proposto. Entretanto, contudo, todavia, é a Jandice que rouba todas as cenas em que aparece, e não são muitas, dando à Kate McKinnon a chance de mostrar que um personagem pequeno pode conquistar e “aparecer” quando bem construído e trabalhado.
 
Os verdadeiros aplausos vão para o figurino assinado por Sarah Edwards, que conseguiu capitar toda a eloquência da história linkada diretamente à cafonice dos anos 80/90, que junto ao departamento de caracterização deram a verdadeira identidade ao longa.
 
“Gênios do Crime”, que chega ao Brasil no final de setembro, não trará nenhuma novidade ao espectador que já pode ver 90% das melhores cenas e piadas da produção no trailer. Quando sair da sessão, provavelmente se sentirá nostálgico e pensará: Que saudade de “Todo Mundo Em Pânico”.


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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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