Crítica: Graças a Deus

“Você quer lutar contra uma pessoa, eu quero lutar contra uma instituição. Um sistema que permite que pessoas cometam crimes por anos e continuem impunes.”

“Graças a Deus”, sussurra um cardeal após a cerimônia de crisma. Pela primeira vez, ouve-se o título do novo filme de François Ozon (“Frantz”). O sentido só se completa, no entanto, quando o mesmo clérigo repete tal expressão. “Graças a Deus, a prescrição venceu”, comemora Philippe Barbarin. Passados muitos anos, o Padre Preynat não mais pagaria por seus crimes: felizmente, na visão de seu superior.

O conflito se estabelece de início. Em conversa com um amigo de infância, Alexandre Guérin (Melvil Poupaud) lembra-se dos abusos outrora sofridos e resolve confrontar o já idoso Bernard Preynat (Bernard Verley). No lugar das esperadas desculpas, porém, encontra um homem sereno. Preynat enxerga-se como um doente. Pedira diversas vezes para ser afastado das crianças. Às suas demandas, somam-se, ainda, as cartas de diversos e preocupados pais. Não foram ouvidos.

Nesse sentido triunfa Ozon. Ao construir uma ficção baseada em uma história real, conforme delimita a cartela de apresentação, o cineasta parisiense restitui à voz aqueles por décadas ignorados. O recurso da narração em primeira pessoa, tão banalizado por um certo cinema convencional, ganha, de outra forma, o peso de uma arma contra o silenciamento sistemático. Enquanto lê as cartas de Alexandre Guérin – versão ficcional de Alexandre Dussot-Hezez -, o seu intérprete Melvil Poupaud (“Laurence Anyways”) realiza uma espécie de sutura histórica: a voz presente do narrador revive a voz da escrita silenciada no passado.

Um rápido olhar, portanto, indica uma estrutura biográfica corriqueira: Poupaud protagoniza um exemplo de luta individual. Nesse caso, contudo, não seria um filme de Ozon. A primeira pista de que se trata de outra coisa encontra-se na própria postura da personagem. Alexandre não quer mera vingança de Preynat. Ou, em outras palavras, não luta contra a Igreja, mas pela Igreja. E Igreja significa justamente comunidade ou união.

Repentinamente, o “protagonista” desaparece. Como a luta não é contra o indivíduo Bernard Preynat, o filme tampouco é sobre a pessoa Alexandre Guérin – ou Dussot-Hezez. Apresentam-se, então, François Debord (Denis Ménochet) – inspirado em François Devaux – e Emmanuel Thomassin (Swann Arlaud) – versão fictícia de Pierre-Emmanuel Germain-Thil. Juntos, eles reencontram Guérin para fundar La Parole Libérée (A palavra libertada). A fundação e, analogamente, o cinema de François Ozon perseguem um único e simples objetivo: dar voz àqueles jamais ouvidos.

Luta contra um sistema, é verdade. Nela se conjugam figuras tão díspares quanto o ateu radical Debord e o católico convicto Guérin. Seria o caso, ao fim, de rejeitar inexoravelmente ou, ao contrário, aceitar cegamente a Igreja? Ozon não parece tão ingênuo. Pensada enquanto comunidade ou união, afinal, La Parole Libérée é ela mesma uma Igreja. No caso particular da Igreja Católica, talvez se tenha perdido tal sentido. “Ainda acredita em Deus?”, interroga-se a Alexandre. Corte. Entre uma tragada e outra no cigarro, Emmanuel olha para cima. De baixo, a câmera captura a diocese, imensamente maior que o minúsculo homem. Imensamente maior que o espectador.

* O filme estreia dia 20, quinta-feira.


Imagens e Vídeo: Divulgação/California Filmes

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