A peça-instalação de Bia Lessa explora os sentidos do espectador desde que ele pisa no Centro Cultural Banco do Brasil
Foto: Roberto Pontes

“Grande Sertão Veredas” tem sido ovacionado por onde passa, com sessões esgotadas até o final da temporada e – ainda sim – uma fila de desistência marca presença antes de cada espetáculo, naquela última esperança de conseguir assistir. A pergunta é: o que o sertão de Bia Lessa tem de tão especial? Algumas coisas.

A obra de Guimarães Rosa, uma das mais relevantes da literatura nacional, é um romance regionalista em que Riobaldo – vivido por Caio Blat – seu protagonista, narra o sertão a partir de suas inquietações, lutas, medos e incoerências como jovem jagunço no sertão, onde viveu um amor reprimido pelo parceiro Reinaldo/Diadorim, que ele não sabia ser, na verdade uma mulher.

Ao pisar no local em que a peça está em cartaz, o espectador se depara com uma estrutura de ferro no centro e bonecos de feltro em tamanho humano espalhados pelo espaço. Os sortudos que conseguem assistir sentam nos arredores desse tipo de andaime e tem a disposição fones de ouvidos individuais – tantos elementos ajudam a compor a proposta da diretora de oferecer uma encenação híbrida, composta por teatro, artes plásticas, uma sonorização cinematográfica – este último de Fernando Henna e Daniel Turini – e de uma quebra total da noção de início, meio e fim.

É de fato artificial ver a peça com fones de ouvidos, mas ao afastar um pouco o acessório das orelhas já fica claro que seria inaudível sem a utilização do mesmo, afinal estamos falando de um texto difícil de ler, encenar e ouvir. O elenco entra em cena e na mesma conexão que começam, terminam – a sintonia para representar plantas, pássaros e inúmeros personagens é forte e selvagem. A encenação com foco nos corpos dos atores, é de fato o maior trunfo de todo o espetáculo. Caio Blat narra a história com um sotaque – bem questionável – e, algumas vezes, acerta na abstração das palavras, em outras, cai na armadilha de declamar o texto. Ainda assim é, de longe, o melhor em cena, garantindo a atenção no que acontece, já  seus parceiros deixam um pouco a desejar.

Luisa Arraes vive o protagonista na sua infância com idas e vindas na trama, a atriz carrega com mais responsabilidade a função de não deixar a peteca lançada por Caio Blat cair, o que, por sua vez, desliza – muitas vezes não se entende o que o Riobaldo mais jovem diz. Outra personagem de destaque, Diadorim, vivida por Luiza Lemmertz, parece estar o tempo todo numa mesma frequência de rispidez – se tratando de uma mulher escondida entre homens, cheia de ódio e alvo da paixão do protagonista, era de se esperar uma interpretação com mais camadas. O elenco traz mais seis nomes: Balbino de Paula, Clara Lessa, Daniel Passi, Elias de Castro, Leonardo Miggiorin e Leon Góes. Eles incorporam pessoas, animais, plantas e troncos deixando vivo o imaginário do sertão a quem assiste. Os corpos nus são as únicas variações da paleta de cor que vemos em cena, tendo em vista que os figurinos de Sylvie Leblanc são pretos e não delineiam os personagens.

Toda a montagem cênica, em conjunto com os outros elementos – os fones, a parafernália exposta – são definitivamente muito interessantes. Porém, é necessário um esforço a mais do espectador do que simplesmente sentar e receber o que lhes é dado – aprender a ser plateia é de fato uma deficiência do teatro brasileiro. Aqueles que não leram, decerto vão se perder, os que leram precisam ter atenção dobrada por conta da encenação lotada de atores – às vezes desnecessariamente. É um espetáculo realmente difícil, porém muito necessário. Os desatentos devem passar longe e os amantes do teatro e da literatura não podem perder.


Por Rayza Noiá


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