Não há força mais destrutiva do que a do ser humano. A natureza do planeta sofre pela ânsia da extração dos recursos naturais, seja para fins comerciais, ou para suprir as necessidades da existência. Como um vírus que infesta e mata seu hospedeiro, devastamos florestas, animais e rios. É verdade que há aqueles que tratam a natureza com respeito e tiram seu sustento sem a degradação, mas são a minoria frente ao grande volume de capitalistas inconscientes.

Geralmente, os que respeitam são os nativos que nasceram e cresceram na terra, e que se tornam parte dela. Eles, assim como as árvores, estão enraizados e entendem as regras de coexistência. No documentário/ficção “Honeyland”, da Macedônia, o espectador acompanha o conflito entre a nativa Hatidze – que vive em uma região montanhosa e relativamente afastada da civilização – com os novos e barulhentos vizinhos que se mudam trazendo consigo tratores, máquinas e caminhões. É uma família enorme, com pai, mãe e incontáveis filhos, além de 150 vacas.

A pobre Hatidze mora com sua idosa e doente mãe e tem na apicultura a única forma de sustento. As abelhas são como queridas irmãs, que trata com enorme carinho e dedicação. O mel que jorra das colmeias adoça uma vida simples e solitária, mas a quase invasão da família nômade muda toda a realidade. Há uma inicial interação e certo grau de amizade, principalmente com as crianças, já que Hatidze nunca se casou e sempre sonhou em ter filhos, mas os problemas surgem quando o patriarca da família se entrega à ganância e começa a também produzir mel.Ele produz com tanta rapidez – com a intenção de ter mais lucros – que acaba por destruir as colmeias da mulher, atacadas pelas ansiosas abelhas vizinhas. Se trata de um homem completamente mesquinho, que não dá atenção aos inúmeros alertas de que suas práticas são prejudiciais. Além disso, ele, os filhos mais velhos e a esposa se mostram completamente alheios aos sofrimentos dos animais que possuem, tratando-os como objetos incapazes de sentir dor.

São inúmeros os momentos de maus tratos com as vacas e com bezerros recém-nascidos. Até plantações de milho e troncos de árvores são vítimas de seres sempre impacientes e miseráveis moralmente. A câmera dos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov acompanha tudo como mera espectadora, em planos longos e contemplativos. Não tem pressa, assim como sua personagem principal. Os sofrimentos da nativa ficam registrados em cada frame de uma história trágica e comovente. Ela representa um planeta que está morrendo perante seus invasores, mas que subsistirá após eles irem embora.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo


Imagens e Vídeo: Divulgação/Deckert Distribution


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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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