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CríticaFilmes

Crítica: Jack Reacher – Sem Retorno

Avatar de Daniel Gravelli
Daniel Gravelli
27 de novembro de 2016 5 Mins Read

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 Tom Cruise volta a ação em mais um Blockbuster

Em 1997 Lee Child desenvolveu um personagem que viria ser um grande sucesso, levando-o a ganhar o prêmio Anthony Award por melhor romance de estreia com o livro “Killing Floor” (Dinheiro Sujo). A história do ex-policial do exército americano, Jack Reacher, agradou tanto o público que desde então vem rendendo vários outros plots, tornando-se um bestseller em diversos cantos do mundo e angariando uma coleção de indicações a prêmios por onde passa.

Reacher é um daqueles tipos que gostamos de acompanhar na literatura, desfrutando cada uma das intrigas em que acaba se metendo. Ao melhor estilo “Jason Bourne”, mas com o diferencial de ser mais esperto (ele entende bastante sobre leis e se adapta com maior facilidade) e não ter problemas de amnésia, a criação de Child carrega uma grande dose de testosterona pura, trazendo o macho alfa que precisa sempre se destacar acima da lei mesmo que para isso enfrente empresas multinacionais, o próprio governo e/ou qualquer pessoa que atrapalhe seu caminho. E é nesse ponto que se arrasta para os diferentes tipos de entrechos que acabam rendendo uma boa e velha conspiração. Fórmula essa que já foi batida mais que liquidificador de lanchonete, mas que funciona com excelência em todas quase todas às vezes que foi usada. Motivo: diverte bastante e entusiasma o público que se envolve com as personagens, querendo desvendar um pouco mais do mistério que às contorna. Afinal quem não gosta de vivenciar e/ou se sentir um herói, mesmo que seja de forma imagética, ao viajar por uma dessas histórias durante a jornada do mesmo?

O tema é tão popular que o cinema usa e abusa dele há décadas, mudando apenas alguns pequenos parâmetros, desenvolvendo clássicos como “Intriga Internacional”, “A franquia 007” e muitos outros. Claro, no meio de tantos, existiram alguns projetos que foram supervalorizados enquanto outros que mereciam destaques perderam todo o glamour por, às vezes, não ostentar um ator ou atriz de peso. A adaptação de Jack Reacher para os cinemas não sofre muito desse problema, por trazer o astro Tom Cruise em seu casting, e vem conseguindo se manter desde 2012 quando o primeiro filme da série foi lançado rendendo 216 milhões de dólares em sua bilheteria mundial. Embora o número seja um dos menores da carreira de Cruise, e o filme tenha sido recebido de forma mediana pela crítica, acabou obtendo um sucesso determinando e os produtores acharam necessário uma continuação do mesmo, a qual chegou nessa última quinta nos cinemas de todo Brasil.

Para quem não conhece os livros não espere encontrar uma continuação exata da história, como acontece como a já citada “franquia Bourne”. As aventuras de Reacher funcionam mais como uma espécie de “saltos” no tempo, nos quais são contados trechos e situações marcantes de sua vida. A narrativa do segundo filme é  completamente paralela e sem ligação nenhuma com o primeiro (tirando, claro, a existência do próprio Jack Reacher e de analogias criadas para lembrarmos o estilo e universo do mesmo). Nela, encontramos a personagem em uma cidade pequena, se envolvendo em mais uma das confusões que o levaram a ganhar o título de encrenqueiro. A situação o faz se interessar e conhecer a jovem Turner, uma Major do exército acusada injustamente por determinados crimes. Nesse ponto, o complexo de Herói do ex-militar fala mais alto e ele decide se meter na situação para resolver o problema e descobrir os verdadeiros culpados, na tentativa de salvar a moça. Entretanto, percebe que sua conexão com o caso pode aproximar a existência de alguém que ele não sabia existir.15271248_1618091878485220_1221800712_oEvidenciando uma produção muito bem feita, de alto padrão, trabalhada pelo proprio Cruise, sua amiga e sócia Paula Wagner e vários outros profissionais, o filme constrói com perfeição a atmosfera do local, mantendo em vários momentos o clima de mistério no ar e o aspecto de cidade do interior. Trabalho esse superior ao do primeiro projeto, que se perdia na tentativa de explorar o lado “policial” da trama.

O roteiro, escrito por Richard Wenk (“O protetor” e “Sete homens e um destino”), em parceria com Edward Zwick (“O último samurai” e “Um ato de liberdade) e Marshall Herskovitz (“Nashville”), inspirado no livro “Jack Reacher: Never go back” de Lee Child, oferece uma fórmula funcional e verossímil, com uma estrutura realista e uma dramaticidade que envolve o espectador do inicio ao fim. Mesmo que tropece um pouco nessa carga dramática eles conseguiram manter a potência das personagens criadas pelo escritor e nos apresentam isso de forma instigante, com diálogos interessantes, deixando de lado boa parte das ações mecânicas encontradas no anterior.

A direção de Zwick dá um verdadeiro banho ao trabalho insosso desenvolvido por Christopher McQuarrie no engessado “Jack Reacher: O último tiro”. Intentando bons movimentos de câmera e angulações que permitem um lado psicológico mais evidenciado, o diretor acaba consentindo uma aproximação da personagem em relação as cenas, engrandecendo ainda mais a obra.

Embora a fotografia tenta ajudar em alguns pontos, trocando com a concepção do diretor, acaba deslizando na tentativa de pincelar paletas de cores em demasia. Ao invés de existir uma mistura mais homogênea entre tons suaves e quentes, aprimorados com certo sombreado, buscando um ambiente mais fechado capaz de aumentar o climax de conspiração do enredo, o diretor de fotografia Oliver Wood opta por propor algo mais clean, trazendo uma imagem lavada que faz perder um pouco da densidade da produção.

Mesmo a fotografia realizando um trabalho mediano e afetando diretamente nesse ponto, o departamento de arte e o figurino conseguem sobressair exercendo um bom serviço. Ambos obedecem com cautela os limites do livro, permitindo um resultado mais simplista, contudo funcional.

O elenco faz um trabalho razoável, com destaque para Danika Yarosh (Heroes: Reborn), como a possível filha de Jack Reacher, e Cobie Smulders (The Avengers) como a Major acusada. As duas estão bem e trocam ótimas cenas juntas, em alguns momentos escondendo o próprio Tom Cruise que ainda funciona um pouco na atuação automática, trazendo uma fatídica interpretação que nos faz lembrar dos heróis de ação dos anos 80/90.

Jack Reacher está longe de ser um excelente filme, mas de uma coisa temos certeza: É muito melhor que o primeiro. O que na literatura tende para algo mais voraz e inteligente, na telona balança como um produto mais comercial, feito para criar bilheteria. Todavia, a diversão é garantida e vale o ingresso.

Produção
9.1
Roteiro
7.2
Direção
8.1
Fotografia
7.3
Elenco
7.4
Direção de Arte e Figurino
8.8
Reader Rating2 Votes
8.45
8

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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