Karim Aïnouz transforma uma mansão ensolarada na Catalunha em território de desejo, dependência, privilégio e violência numa sátira familiar tão bonita quanto perturbadora
Famílias criam regras próprias. Algumas são banais, outras só fazem sentido para quem cresceu dentro delas e existem aquelas que, observadas de fora, parecem resultado de décadas de convivência sem ninguém ter tido coragem de perguntar se aquilo tudo era minimamente saudável. “Rosebush Pruning” pertence a essa última categoria e leva a ideia até um lugar tão desconfortável quanto engraçado. Karim Aïnouz encontra quatro irmãos, um pai cego, dinheiro suficiente para afastar quase qualquer consequência do lado de fora e um núcleo familiar que passou tempo demais acreditando que poderia viver segundo seus próprios limites.

O resultado é um filme deliberadamente excessivo. Desejo, ciúme, ressentimento, sexo, violência e dependência emocional circulam pela mesma casa com uma naturalidade perturbadora. Em vários momentos, a primeira reação é rir do absurdo. Poucos segundos depois, surge a dúvida sobre se havia realmente alguma coisa engraçada ali. Esse desconforto define muito bem o terreno em que Aïnouz trabalha durante boa parte da projeção.
Livremente inspirado em “De Punhos Cerrados”, estreia de Marco Bellocchio lançada em 1965, “Rosebush Pruning” desloca a desintegração familiar para uma família norte-americana extremamente rica vivendo em uma mansão na Catalunha. O próprio Aïnouz afirmou que queria discutir isolamento, concentração de riqueza e privilégio, usando uma família branca e abastada como espaço para observar o que acontece quando conforto e poder deixam de encontrar qualquer resistência externa.
É nesse pequeno mundo que Jack decide simplesmente ir embora.
Em qualquer outra família, um filho adulto anunciar que pretende morar com a namorada provavelmente provocaria alguma saudade, talvez uma discussão e algumas caixas espalhadas pela casa. Ali, a decisão funciona quase como uma tentativa de golpe de Estado. E esse é apenas o começo.
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Uma família que passou tempo demais olhando apenas para si mesma
Jack, vivido por Jamie Bell, ocupa uma posição importante dentro daquela dinâmica e sua intenção de construir uma vida com Martha, interpretada por Elle Fanning, expõe o quanto a aparente estabilidade familiar depende da impossibilidade de mudança. Enquanto ele tenta sair, Ed começa a investigar o que realmente aconteceu com a mãe, e as relações entre os irmãos revelam níveis cada vez mais estranhos de intimidade, rivalidade e desejo.
A sinopse oficial já apresenta Jack, Ed, Anna e Robert como irmãos mergulhados no isolamento e na fortuna herdada, mas o filme rapidamente mostra que o problema está menos na riqueza em si do que no ecossistema produzido por ela. Essas pessoas praticamente não precisam lidar com o mundo exterior. Têm dinheiro, espaço, empregados, roupas caras e uma propriedade que funciona como universo autossuficiente.
Quando não existe necessidade de adaptação ao outro, qualquer regra interna pode começar a parecer aceitável. É aí que “Rosebush Pruning” encontra uma crítica muito eficiente ao privilégio. Aïnouz não precisa colocar personagens fazendo discursos sobre desigualdade social. O dinheiro está nos cenários, nos figurinos, na despreocupação com trabalho e no tempo aparentemente infinito que aquela família possui para alimentar as próprias neuroses.
O isolamento também produz uma espécie de infantilização. São adultos capazes de consumir, desejar e transar, mas emocionalmente presos a uma estrutura familiar que parece nunca ter permitido uma separação verdadeira entre seus integrantes. Quando alguém tenta sair, todos precisam confrontar aquilo que estavam evitando: talvez eles não saibam existir longe uns dos outros.
E o filme olha para essa descoberta com uma crueldade bastante divertida.

Efthimis Filippou escreve pessoas que parecem desconhecer completamente o conceito de limite
O roteiro é assinado por Efthimis Filippou, colaborador de Yorgos Lanthimos em filmes como “Dente Canino” e “O Lagosta”, e sua presença aparece rapidamente na maneira como “Rosebush Pruning” trata situações absurdas como acontecimentos perfeitamente cotidianos.
Os personagens dizem coisas estranhas sem necessariamente reconhecer a estranheza do que acabaram de dizer. Relações profundamente inadequadas são discutidas com serenidade. Situações que deveriam provocar uma ruptura imediata recebem respostas quase burocráticas. O humor nasce desse desencontro entre a gravidade do que vemos e a naturalidade com que aquelas pessoas vivem.
Isso dá ao longa uma personalidade muito específica, mas também cria uma pequena barreira inicial. “Rosebush Pruning” exige que o espectador aceite rapidamente seu registro. Quem tentar enxergar aquela família a partir de uma lógica inteiramente realista provavelmente ficará procurando explicações para comportamentos que o filme está muito mais interessado em ampliar até o absurdo.
Quando se entra no jogo, porém, a experiência melhora bastante.
Filippou e Aïnouz não querem que essa família seja agradável. Também não procuram oferecer uma justificativa psicológica confortável para cada comportamento. Os personagens são egoístas, mimados, sexualmente confusos e, por vezes, absolutamente patéticos. Ainda assim, conseguem despertar curiosidade porque existe algo fascinante em observar aquele sistema fechado perder suas peças.
O roteiro poderia distribuir melhor algumas informações e determinadas provocações parecem existir principalmente para empurrar o desconforto um pouco mais adiante. Nem todo excesso possui a mesma força. Mas a disposição de seguir esses personagens até lugares bastante inconvenientes impede que o filme fique domesticado.

Karim Aïnouz encontra prazer em deixar tudo desandar
A direção talvez seja o elemento que melhor equilibra a insanidade do roteiro. Aïnouz poderia transformar “Rosebush Pruning” em uma experiência pesada e sufocante, considerando a quantidade de abuso, desejo reprimido e violência presente naquele núcleo. Em vez disso, escolhe luminosidade, movimento, cor e um humor que torna tudo ainda mais estranho.
O cineasta definiu o filme como uma experiência ligada também à vontade de voltar a filmar e rir, e essa disposição aparece na encenação. Há prazer na forma como ele observa esses personagens se comportando mal. Não existe uma postura sisuda tentando lembrar ao público o tempo inteiro que o assunto é sério. A seriedade está no que aquela dinâmica revela, enquanto o filme se permite brincar com seus excessos.
Essa escolha torna a violência mais incômoda justamente porque ela nasce dentro de um ambiente visualmente agradável. A ameaça raramente é anunciada por uma mudança drástica de linguagem. O sol continua entrando pelas janelas. As roupas continuam impecáveis. A casa permanece maravilhosa. Só as pessoas vão ficando cada vez piores.
A metáfora do título ajuda a entender o movimento. “Rosebush Pruning” significa poda da roseira, e Ed apresenta a ideia de uma família como um conjunto de rosas que, em determinado momento, precisaria ser podado. O filme transforma essa imagem em princípio narrativo: alguma coisa precisa ser retirada para que outra consiga continuar existindo.
O problema é descobrir quem decidiu segurar a tesoura.
Hélène Louvart fotografa decadência como propaganda de luxo
A fotografia de Hélène Louvart é um dos grandes prazeres do filme. “Rosebush Pruning” é bonito de uma maneira quase ofensiva considerando o que acontece dentro dele. Há sol, vegetação, madeira, vidro, piscinas, roupas coloridas e uma casa que poderia ocupar tranquilamente páginas de uma revista de arquitetura. Tudo parece limpo, caro e cuidadosamente composto.
Aïnouz contou que queria uma imagem próxima de algodão-doce: luminosa, colorida e quase artificialmente agradável. E usa Douglas Sirk como referência para a construção de histórias dolorosas envolvidas por imagens exuberantes.
Essa decisão visual oferece ao filme um contraste muito mais interessante do que simplesmente escurecer o cenário conforme a família desmorona. Quanto mais podres aquelas relações se revelam, mais absurda fica a beleza que as envolve.
É possível olhar para um enquadramento e desejar morar naquela casa enquanto, simultaneamente, surge uma vontade bastante razoável de manter vários quilômetros de distância das pessoas que vivem nela.
A arquitetura também participa diretamente dessa sensação. As paredes de vidro criam transparência sem produzir intimidade verdadeira. Todos podem aparentemente ver tudo, mas segredos continuam circulando por aquela família. A mansão permite proximidade física constante enquanto evidencia o isolamento emocional de seus moradores.
É uma espécie de vitrine. Tudo está exposto. Mas ninguém parece enxergar direito.

Um elenco inteiro disposto a perder a vergonha
“Rosebush Pruning” possui um elenco impressionante: Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Lukas Gage, Elle Fanning, Elena Anaya, Tracy Letts e Pamela Anderson. A escalação poderia facilmente transformar o filme numa disputa por protagonismo, mas Aïnouz trabalha o grupo como uma companhia.
Ele contou que os atores passaram duas semanas ensaiando e convivendo antes das filmagens, inclusive realizando refeições juntos em personagem para construir uma sensação de família. O investimento aparece na tela.
Há uma intimidade desconfortável entre aqueles corpos que seria difícil produzir apenas pela exposição do roteiro. Os personagens se tocam, ocupam o espaço uns dos outros e compartilham uma familiaridade física que, gradualmente, começa a ultrapassar fronteiras que normalmente seriam bastante claras.
Callum Turner encontra em Ed um excelente equilíbrio entre observador e participante daquele desastre. Ele parece perceber parte da monstruosidade da própria família ao mesmo tempo em que continua profundamente contaminado por ela.
Riley Keough entende perfeitamente o registro do filme e assume Anna sem tentar suavizar suas excentricidades. Sua personagem é excessiva porque aquele universo também é. Há momentos em que basta uma expressão ou uma mudança de postura para deixar uma cena mais engraçada e mais desconfortável ao mesmo tempo.
Jamie Bell trabalha Jack como a peça que tenta escapar do mecanismo, enquanto Elle Fanning funciona como elemento externo capaz de revelar, pela simples presença, o quanto aquela casa perdeu qualquer referência de normalidade.
Lukas Gage abraça o absurdo de Robert, e Tracy Letts encontra no pai uma presença que permanece dominante mesmo limitada fisicamente pela cegueira.
Pamela Anderson possui uma participação diferente dentro dessa configuração e ajuda a ampliar uma história familiar construída também sobre ausências, lembranças e versões conflitantes do passado.
Ninguém parece preocupado em proteger a própria imagem. Para um filme desse tipo, isso faz toda a diferença.
Figurino e direção de arte transformam privilégio em personalidade
Rodrigo Martirena assina o design de produção e ajuda a construir um mundo onde riqueza aparece menos como ostentação explícita e mais como condição permanente. A própria intenção de Aïnouz era evitar aquela representação óbvia de milionários cercados por objetos ostensivamente caros. O privilégio deveria parecer incorporado à rotina dos personagens.
Funciona muito bem. Eles não precisam demonstrar que têm dinheiro porque tudo ao redor já pressupõe isso.
Os figurinos seguem a mesma lógica. Moda é parte importante da identidade dessa família, assim como música e aparência. As roupas chamam atenção, têm cores fortes e ajudam a individualizar personagens que compartilham um mesmo ambiente emocional.
É também por isso que a decadência ganha tanta graça visual. Eles continuam impecavelmente vestidos enquanto tomam decisões cada vez mais questionáveis.
“Rosebush Pruning” parece interessado nessa contradição entre superfície e conteúdo o tempo inteiro. A embalagem continua linda. O interior está apodrecendo.

Música e som deixam a casa ainda mais estranha
Matthew Herbert assina a música, enquanto Frank Kruse, Michael Kaczmarek e Diego Casares trabalham o som. A trilha evita tentar transformar cada momento estranho em suspense explícito. Música pop, silêncio e sons do ambiente participam da sensação de que aquelas pessoas vivem em uma bolha particular, quase sempre afastada do mundo que existe além da propriedade.
Essa relação com a música também está integrada aos personagens. O interesse deles por moda e cultura pop reforça uma família que parece construir identidade por meio de consumo, gosto e aparência enquanto evita lidar com aquilo que existe por baixo dessas escolhas.
O som trabalha bem especialmente quando a tensão começa a dividir espaço com situações cômicas. “Rosebush Pruning” consegue permanecer engraçado sem eliminar a ameaça e manter uma sensação de perigo sem abandonar o absurdo. Essa oscilação é uma das coisas mais difíceis do filme.
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A montagem sabe quando deixar o desconforto permanecer
A montagem assinada por Heike Parplies, David Jancso e Ilka Janka Nagy precisa administrar um conjunto de personagens, relações e mudanças de tom que poderia facilmente transformar o filme numa bagunça.
Há cenas que duram justamente o suficiente para que uma situação inicialmente engraçada comece a ficar desagradável. Outras são interrompidas antes que o espectador consiga processar completamente aquilo que acabou de acontecer. Essa irregularidade calculada combina muito com o universo de Filippou.
O filme também não corre para explicar todos os seus personagens. Informações familiares aparecem gradualmente e cada revelação muda um pouco a percepção sobre determinadas relações.
Em alguns momentos, porém, a vontade de surpreender se sobrepõe à construção. Nem toda revelação possui o mesmo impacto, e existem passagens em que o longa parece apostar mais na estranheza do que na progressão dramática.
Ainda assim, seus 97 minutos passam com facilidade porque existe uma curiosidade constante sobre qual limite aquela família conseguirá ultrapassar em seguida. E, quase sempre, a resposta é: mais um.

Rosebush Pruning encontra beleza justamente onde tudo está apodrecendo
O que torna “Rosebush Pruning” tão interessante é que Karim Aïnouz não observa aquela família apenas para dizer que pessoas ricas são terríveis. Seria pouco.
O filme está interessado no que acontece quando um grupo possui dinheiro suficiente para construir um mundo quase impermeável ao exterior. Sem confronto, sem necessidade de adaptação e sem limites vindos de fora, aquela família passa a naturalizar comportamentos que qualquer outra pessoa identificaria rapidamente como destrutivos.
O privilégio funciona como anestesia. A dependência ganha aparência de amor. Controle passa por cuidado. Desejo ignora fronteiras. E aquilo que deveria manter a família unida começa justamente a destruí-la.
Aïnouz declarou que via o projeto como uma investigação sobre a maneira como intimidade, privilégio e violência podem se tornar indistinguíveis quando poder e conforto passam tempo demais sem serem questionados. É exatamente isso que aparece na tela.
“Rosebush Pruning” é provocativo, sexualmente estranho, cruel e frequentemente muito engraçado. Pode exagerar na busca pelo desconforto e algumas de suas provocações parecem interessadas principalmente em testar até onde o filme consegue avançar. Só que existe inteligência na maneira como essa loucura é encenada.
A casa é maravilhosa. As roupas são maravilhosas. A luz é maravilhosa. As pessoas são um desastre.
E essa é a imagem perfeita para a família que Karim Aïnouz constrói: algo que parece impecável quando visto de longe e se torna progressivamente mais perturbador quanto mais tempo passamos dentro dele. Quanto menos se souber sobre os caminhos específicos dessa implosão antes da sessão, melhor.
Parte do prazer de “Rosebush Pruning” está justamente em perceber uma situação se aproximando, pensar que o filme certamente não pretende ir até ali e descobrir, poucos segundos depois, que ele já foi muito além.
Esse filme foi assistido durante o Festival do Rio 2026.
Imagem Destacada: Divulgação/The Match Factory



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