Ana Luiza Azevedo encontra personalidade na ambientação e no universo da natação, mas o drama protagonizado por Mel Maia perde força quando emoções importantes são resolvidas depressa demais
Adolescência costuma transformar problemas que já seriam grandes em acontecimentos capazes de ocupar o mundo inteiro. Uma briga com a mãe, uma paixão recém-descoberta, uma amizade, um segredo familiar ou uma pergunta sem resposta podem ganhar proporções enormes porque ainda não existem muitas experiências anteriores para colocar aquilo em perspectiva. “Medley” entende bem essa intensidade juvenil e encontra nela um coming of age simpático, visualmente cuidadoso e fácil de acompanhar. O problema aparece quando a história encosta em traumas que pediriam um pouco mais de tempo e profundidade do que o filme está disposto a oferecer.

Dirigido por Ana Luiza Azevedo e adaptado por Keka Reis de seu próprio livro “Medley ou os Dias em que Aprendi a Voar”, o longa acompanha Lola, uma adolescente de 16 anos interpretada por Mel Maia. Nadadora talentosa e dona de uma coleção de medalhas, ela guarda uma limitação curiosa: não consegue executar o estilo borboleta. O bloqueio está ligado a lembranças que Lola ainda não consegue acessar completamente e à misteriosa ausência do pai, cuja história permanece cercada por silêncios dentro de casa.
Depois de mais uma discussão com a mãe, Lola decide passar as férias sozinha em Salto Bonito, cidade do interior onde seus pais se conheceram. É ali que surgem novas amizades, o primeiro amor, outro time de natação e, principalmente, pistas sobre um passado familiar que começa a reaparecer toda vez que ela entra na água. O filme integra a Première Brasil – Nova Geração do Festival do Rio 2026 e chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro.
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Medley encontra na adolescência seu caminho mais confortável
O filme funciona melhor quando aceita plenamente sua natureza juvenil. Há uma leveza agradável nos encontros entre Lola e os jovens de Salto Bonito, no nascimento das amizades e na descoberta de uma vida que existe longe dos conflitos familiares que ela deixou para trás.
A própria natação funciona bem como metáfora desse processo. Lola sabe nadar, compete, possui técnica e experiência, mas existe um estilo específico que seu corpo parece rejeitar. O bloqueio no borboleta conecta fisicamente aquilo que ela ainda não conseguiu compreender emocionalmente, e o roteiro utiliza a água como lugar onde lembrança, medo e amadurecimento começam a se encontrar.
O problema é que “Medley” possui uma história potencialmente mais pesada do que o tom escolhido para contá-la. O desaparecimento do pai, os conflitos familiares e as revelações que cercam o passado de Lola oferecem matéria para um drama bastante intenso. Só que o longa permanece durante grande parte do tempo com um ar de filme adolescente leve, mesmo quando chega a situações que poderiam pedir uma mudança maior de registro.
Essa escolha não chega a prejudicar a história como um todo, mas impede que algumas emoções alcancem a força que poderiam ter.
O roteiro encontra boas ideias, mas corre quando deveria permanecer
Keka Reis escreveu primeiro o projeto para o cinema e posteriormente transformou a história no romance publicado em 2021. A narrativa é ambientada no início dos anos 1990, período em que uma adolescente ainda poderia viajar para uma pequena cidade, estabelecer relações sem celulares ou redes sociais e descobrir histórias familiares por meio de conversas, fotografias e encontros presenciais.
Esse recorte temporal combina muito bem com a proposta. A ausência de tecnologia atual não parece uma conveniência inventada para facilitar o roteiro, mas parte natural do universo de Lola. Segredos permanecem escondidos porque encontrar respostas exigia efetivamente procurar pessoas, visitar lugares e fazer perguntas que talvez ninguém quisesse responder.
Há ainda uma estrutura de descoberta eficiente. Conforme Lola conhece a cidade, o espectador percebe que aquele lugar guarda muito mais sobre sua família do que ela imaginava. A piscina, as novas relações e os moradores acabam funcionando como caminhos que aproximam a protagonista da verdade. Só que o roteiro também apressa algumas de suas cenas mais importantes.
Quando a carga dramática aumenta, determinadas conversas e confrontos terminam antes que o peso emocional possa se instalar de verdade. O filme chega ao sentimento, apresenta a situação e rapidamente segue em frente. Essa rapidez deixa algumas revelações parecendo menores do que deveriam, sobretudo porque envolvem assuntos capazes de reorganizar completamente a maneira como Lola entende a própria infância e a relação com os pais.
Faltam alguns segundos de silêncio. Falta permanecer um pouco mais depois de determinadas frases. Falta permitir que certos acontecimentos realmente atinjam os personagens antes de a narrativa caminhar para a cena seguinte.

A direção encontra naturalidade no cotidiano, mas perde força nos momentos mais dramáticos
Ana Luiza Azevedo já havia trabalhado com adolescência em “Antes que o Mundo Acabe”, e existe em “Medley” uma familiaridade com esse universo. A diretora sabe observar pequenos rituais juvenis sem transformar os personagens em adultos escritos com roupas de adolescentes.
Há espontaneidade em vários encontros e uma boa relação entre os atores mais jovens. O filme também evita transformar cada descoberta de Lola em um grande evento explicativo, permitindo que amizade, atração e insegurança apareçam de maneira relativamente orgânica. A dificuldade maior está na direção das cenas dramáticas.
Quando os atores precisam chegar ao choro ou a uma ruptura emocional mais intensa, a encenação frequentemente encerra o momento cedo demais. Em algumas cenas, o gesto de esconder o rosto com as mãos acaba substituindo aquilo que deveria aparecer na própria interpretação. O sofrimento está indicado, mas nem sempre é sentido.
Não se trata de exigir choro explosivo ou melodrama. Uma atuação contida poderia funcionar perfeitamente. O problema é que, em determinados momentos, a contenção parece menos uma escolha e mais a ausência de tempo suficiente para que a emoção amadureça dentro da cena.
Esse aspecto afeta principalmente a reta final, justamente quando o longa precisa colher tudo aquilo que vinha preparando sobre Lola e seu passado.
A fotografia entende que água e memória pertencem ao mesmo espaço
A fotografia de Lílis Soares está entre os elementos que melhor sustentam “Medley”. A água recebe atenção especial sem precisar virar uma metáfora visual óbvia em todas as cenas. A câmera acompanha o corpo de Lola dentro da piscina, registra o movimento dos treinos e encontra diferenças entre a segurança da personagem nos estilos que domina e o bloqueio associado ao borboleta.
Também existe um bom contraste entre os espaços. A pequena cidade oferece uma atmosfera diferente daquela apresentada inicialmente na vida de Lola, e essa mudança visual ajuda a marcar a sensação de férias e descoberta. Conforme a personagem se aproxima de respostas sobre o passado, os lugares deixam de funcionar apenas como cenário e passam a carregar memória.
A fotografia consegue ser bonita sem transformar o interior dos anos 1990 em uma coleção artificial de imagens nostálgicas. Isso é importante porque o design de produção já possui presença suficiente para estabelecer o período.
Mel Maia sustenta Lola, mas o elenco sofre quando o filme pede lágrimas
Mel Maia encontra uma personagem que combina bem com sua presença. Lola possui alguma dureza, é fechada, reage impulsivamente e carrega uma mistura bastante adolescente de segurança e fragilidade. A atriz funciona principalmente nos momentos cotidianos, quando a personagem precisa apenas ocupar aquele universo e reagir às pessoas novas que começam a entrar em sua vida.
Guthierry Sotero, Alana Cabral e os demais jovens ajudam a dar ao núcleo de Salto Bonito uma dinâmica agradável, enquanto Mariana Lima carrega parte importante da tensão familiar como Catarina, mãe de Lola.
André Ramiro, como Érico, participa de uma parte decisiva da conexão da protagonista com o passado. Sua presença ajuda a ampliar o universo adulto da história e a revelar como as lembranças sobre os pais de Lola mudam dependendo de quem as conta.
O elenco funciona bem quando o registro permanece naturalista e cotidiano. As fragilidades aparecem justamente quando a direção exige emoções maiores. Os choros nem sempre convencem, alguns confrontos parecem rapidamente interrompidos e certos atores recorrem ao gesto de esconder o rosto quando a cena deveria permitir que a câmera encontrasse a emoção.
Isso deixa a impressão de que existia material dramático para performances mais marcantes do que aquelas que chegaram à montagem final.
O design de produção faz os anos 90 existirem sem precisar anunciar a década
Se existe uma área em que “Medley” acerta com segurança, é na ambientação. A direção de arte de Monica Palazzo reconstrói os anos 1990 com bastante cuidado. Objetos, interiores, roupas e elementos espalhados pelos cenários ajudam a localizar a história temporalmente sem transformar cada enquadramento em uma vitrine de referências nostálgicas. É um mérito importante.
Produções de época recentes muitas vezes parecem empenhadas em lembrar ao público a cada minuto em qual década estão. Um aparelho aparece estrategicamente em primeiro plano, uma música famosa começa a tocar e alguém veste uma peça que praticamente grita o ano em que a narrativa acontece. “Medley” é mais natural.
Os objetos parecem pertencer àquelas casas porque deveriam estar ali, e não porque o filme precisa provar que realizou uma pesquisa de época. A ausência de smartphones e comunicação instantânea também está organicamente ligada à história, permitindo que a viagem de Lola realmente represente um afastamento.
Essa construção é especialmente importante porque o começo dos anos 1990 não funciona apenas como decoração. A história depende de um período em que uma adolescente pudesse descobrir o passado dos pais sem simplesmente pesquisar seus nomes na internet.
Figurinos completam uma época que parece habitada
Os figurinos acompanham o mesmo cuidado da direção de arte. As roupas ajudam a diferenciar os jovens, estabelecer personalidades e construir o período sem recorrer constantemente às peças mais caricatas associadas à década. Existe um equilíbrio entre reconhecimento e naturalidade que faz com que os personagens pareçam habitantes daquele momento, e não pessoas de 2026 participando de uma festa temática dos anos 90.
O ambiente esportivo também recebe atenção. Maiôs, uniformes, piscinas e equipamentos ajudam a dar alguma materialidade à trajetória de Lola como nadadora e impedem que esse aspecto exista apenas porque o roteiro necessita de uma metáfora para superação.
Nesse sentido, a produção oferece ao filme uma consistência que nem sempre encontra equivalente no desenvolvimento dramático.
Música e desenho de som ajudam a recuperar uma época anterior à hiperconexão
A música de Leo H e o desenho de som de Bernardo Uzeda trabalham dentro de uma produção em que a água naturalmente ocupa uma parte importante da experiência sonora. Treinos, mergulhos e momentos dentro da piscina modificam a percepção do ambiente e oferecem ao filme uma oportunidade de aproximar o espectador da protagonista sem recorrer ao diálogo.
A ambientação musical também contribui para o período, mas sem transformar a narrativa numa sequência de sucessos escolhidos apenas para acionar nostalgia.
Como “Medley” trabalha com uma personagem bastante fechada, o som possui ainda a função de ocupar espaços que o roteiro não preenche com falas. É uma decisão coerente com o modo como Lola se relaciona com o próprio trauma: seu corpo reage muitas vezes antes que ela consiga colocar aquilo em palavras.

A montagem poderia permitir que algumas emoções respirassem mais
A montagem de Giba Assis Brasil mantém os 93 minutos bastante fluidos. O longa dificilmente parece arrastado e possui uma progressão muito clara entre chegada a Salto Bonito, estabelecimento das novas relações e descoberta do passado. Essa fluidez, porém, cobra um preço.
Algumas cenas importantes são encerradas quando parecem estar começando a atingir seu verdadeiro ponto emocional. O corte chega, a narrativa segue e a emoção precisa ser carregada para a próxima situação sem que o público tenha necessariamente conseguido absorver a anterior. É justamente nesses momentos que “Medley” poderia trocar um pouco de eficiência por permanência.
Um coming of age não precisa transformar cada descoberta em sofrimento prolongado. Mas, quando o filme constrói um trauma familiar como centro da identidade de sua protagonista, determinadas respostas precisam deixar alguma marca maior.
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Medley tem coração, mas poderia confiar mais no próprio drama
“Medley” é um filme agradável, bem produzido e bastante consciente do público com quem deseja conversar. Há uma protagonista fácil de acompanhar, uma ambientação muito bem realizada e uma metáfora eficiente entre memória, corpo e água. Também existe uma história sobre amadurecimento que funciona.
Lola chega a Salto Bonito carregando perguntas que sequer sabe formular completamente e encontra naquele espaço amizades, desejo, autonomia e informações capazes de mudar a relação com a própria história. A estrutura de coming of age está bem montada e oferece um arco satisfatório.
O que impede o filme de alcançar uma força maior é justamente sua hesitação diante do próprio drama.
Há material pesado ali. Há abandono, trauma, silêncios familiares, culpa e revelações capazes de desmontar certezas cultivadas durante anos. Só que o longa frequentemente se aproxima dessas emoções e recua antes de explorá-las por inteiro.
O resultado é uma produção que, mesmo quando toca em assuntos dolorosos, preserva um ar de filme adolescente mais leve. Essa característica pode funcionar muito bem para o público jovem ao qual parte da história naturalmente se dirige, mas também deixa a sensação de que havia um filme emocionalmente mais complexo escondido dentro daquele mesmo roteiro.
A ambientação dos anos 90 convence, a fotografia encontra boas imagens e Mel Maia conduz Lola com segurança nos momentos cotidianos. Quando chega a hora de romper emocionalmente, entretanto, “Medley” poderia mergulhar um pouco mais fundo.
Talvez a própria natação ofereça a melhor imagem para descrevê-lo. O filme entra na piscina, possui técnica, sabe para onde está indo e consegue completar a prova. Só que, diante das águas mais profundas de sua própria história, prefere permanecer um pouco mais perto da superfície.
Esse filme foi assistido durante o Festival do Rio 2026.
Imagem Destacada: Divulgação/Vitrine Filmes



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