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CríticaFilmes

Crítica: Maria do Caritó

Avatar de João de Queiroz
João de Queiroz
31 de outubro de 2019 4 Mins Read

Maria do Carito poster

À primeira vista, “Maria do Caritó”, adaptação da peça homônima escrita por Newton Moreno, é um projeto minimamente curioso, levando em consideração os tempos atuais. Afinal de contas, a premissa acerca de uma virgem de meia-idade que deseja, mais do que tudo, encontrar um marido para, enfim, ter sua primeira relação sexual abre margem para uma trama datada e machista, na qual a satisfação feminina depende exclusivamente da ação de um homem (nesse caso, literalmente de um falo). Entretanto, na verdade, Moreno e o co-roteirista José Carvalho utilizam esse ponto-de-partida potencialmente problemático como forma de acompanhar o gradual processo de emancipação de uma mulher cuja vida foi, desde sempre, meticulosamente controlada por figuras masculinas.

A começar pelo próprio pai da protagonista (Sylvio Zilber), que, logo que Maria (Lília Cabral) nasceu, a prometeu ao obscuro São Djalminha, numa tentativa de garantir a sobrevivência de sua cria recém-nascida após um parto complicado que tirou a vida de sua esposa. Dessa forma, para manter-se pura até sua união com o santo, Maria viu-se relegada à eterna virgindade, condição que ela despreza (“fazer promessa com a cabaça dos outros é fácil”) e tenta reverter desesperadamente através de simpatias a Santo Antônio. Como se isso não bastasse, seu pai ainda explora a condição da filha em benefício próprio, ao colher seu suor (resultado dos sonhos eróticos que tem diariamente) e vender como elixir, não só lucrando financeiramente, mas também alimentando o mito em torno de Maria (a “teia de aranha consagrada”, como diz um canto feito pelos moradores da cidade).

Essa mesma dinâmica extrapola os limites domésticos e faz de Caritó (como também é conhecida) uma importante peça do jogo político local, cuja suposta “santidade” é usada por Coronel (Leopoldo Pacheco) para arrebanhar votos na eleição municipal e por Monsenhor (Fernando Neves) para garantir a manutenção da influência política da Igreja na região. Isso sem contar a última peça desse quebra-cabeça, o circo itinerante que chega à cidade em busca de um novo número e que encontra na “santa” que deseja ser artista uma oportunidade de ouro. Para isso, um de seus integrantes, Anatoli (Gustavo Paz), usa de seu poder de sedução como tentativa de cativar a famosa virgem, iludida com a possibilidade de finalmente ter encontrado o verdadeiro amor.

Em resumo, Maria é constantemente utilizada pelos homens ao seu redor sem que nenhum deles tenha o mínimo de preocupação quanto ao seu bem-estar. Pouco importa se ela não quer ser canonizada ou viver em função de uma promessa sobre a qual teve nenhum poder de decisão; sua existência foi decidida antes mesmo dela se entender como gente e, portanto, só lhe resta aceitar (e até mesmo agradecer) o destino que a ela foi concedido.

Não à toa, as únicas pessoas que lhe mostram algum tipo de compaixão são as outras personagens femininas, que, de uma maneira ou de outra, compreendem a dificuldade da sobrevivência da mulher em uma sociedade construída para subjugá-la. Isso não significa, porém, que os realizadores façam desse círculo de convivência feminino algo idealizado, como se todas se amassem incondicionalmente; pelo contrário, apesar dos pontos em comum, cada uma encontra uma forma de burlar o sistema patriarcal de acordo com sua própria visão de mundo e objetivos (o que não exclui passar por cima de outra mulher, por exemplo). É, especialmente, na construção desses relacionamentos entre homens e mulheres, de empatia e exploração, em que o filme é mais bem-sucedido, criando um retrato diverso e, na maior parte das vezes, humanizado, apesar do tom over da produção.

Maria do Carito 5

Entretanto, à medida que avança, “Maria do Caritó” perde um pouco do foco, abordando mais assuntos do que parece suportar, o que o torna progressivamente cansativo e menos envolvente. Apesar de tratar de um tema sempre atual no Brasil – a estreita relação entre a classe política e líderes religiosos –, o plot das eleições municipais, em especial, é bastante irregular, uma vez que se sustenta em uma série de críticas fáceis, aparentemente inseridas no filme como forma de justificar sua relevância no cenário nacional de 2019. Um exemplo claro disso é o desdém de Coronel pelo circo que chega à cidade, o que permite aos roteiristas pôr em sua boca frases como “a primeira coisa que vou fazer quando eleito é acabar com a Secretaria de Cultura”. A crítica é extremamente válida e, imediatamente, remete a ações dos governos Temer e Bolsonaro, porém ela nunca passa disso. Não se discute, afinal, o que faz políticos autoritários terem tanto medo de uma classe artística atuante e livre para falar o que quiser; tudo se resume a frases de efeito que o espectador já ouviu em algum lugar.

Além disso, certas escolhas narrativas no terceiro ato são extremamente forçadas a ponto de não fazerem o menor sentido. Apesar de tentar ironizar esses absurdos, o filme não consegue apagar a impressão de que essas decisões foram tomadas pelo simples fato de os roteiristas não saberem como terminar a trama de maneira satisfatória, invocando um manjado deus ex machina.

Mesmo assim, no todo, “Maria do Caritó” é uma divertida comédia popular ancorada numa ótima performance central de Lília Cabral que, por pouco, não faz milagres como aqueles atribuídos à personagem-título.


Imagens e vídeo: Divulgação/Imagem Filmes

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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