Crítica: Meu Amor por Grace

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“Meu Amor por Grace” é um filme com ares de novela das seis. Ambientado em um longínquo vilarejo no arquipélago havaiano, o longa de David L. Cunningham utiliza uma atmosfera “exótica” para tentar dar uma nova roupagem a um dos dilemas narrativos mais tradicionais: o amor proibido. Centrado no desenvolvimento da paixão entre Jo (Ryan Potter), filho bastardo de um homem branco com uma imigrante japonesa, e Grace (Olivia Ritchie), filha única de um influente fazendeiro de café, “Meu Amor por Grace” é um filme de poucas ambições cujo único objetivo é emocionar o espectador com uma açucarada história de amor.

Logo, assim como com as teledramaturgias de final de tarde, o mais importante não é sair em busca de inovações estéticas ou de um fidedigno retrato de uma sociedade específica em uma determinada época, mas sim analisar se os elementos característicos do gênero são bem construídos e utilizados pela obra. No caso de “Meu Amor por Grace”, o resultado é definitivamente misto.

A primeira metade do filme é bem-sucedida dentro de sua proposta. Nesse trecho, os realizadores conseguem estabelecer bem as personagens principais e o ambiente em que elas estão inseridas. A direção de arte, em especial, consegue visualmente apresentar as diferentes culturas e etnias que se misturam no vilarejo, como também aponta a decadência econômica pela qual a região vêm passando com a crise do café. A pequena bandeira de Portugal na mesa do prefeito, a distinção entre a feira japonesa e a arquitetura da casa do dono da plantação, o cinema fora de funcionamento: todos esses elementos ajudam a estabelecer de forma eficiente, mesmo que não necessariamente profunda, as características socioeconômicas da região.

Além disso, o relacionamento entre Jo e Doc (Matt Dillon), médico contratado para evitar a proliferação da gripe espanhola dentre os imigrantes japoneses, é bem introduzido e garante ao menos um pilar sólido sobre o qual o resto do filme pode se sustentar. A dinâmica de mestre e aprendiz, mas também de pai e filho, construída entre essas personagens é o melhor aspecto do roteiro escrito por Cunningham e Christian Parkes.

Entretanto, à medida que o longa joga suas atenções para o romance entre Jo e Grace, os resultados obtidos pelo filme, curiosamente, se tornam piores. Muito disso se deve à total falta de desenvolvimento da protagonista feminina, que permanece a mesma pessoa passiva e desinteressante do início ao fim da projeção. Apresentada como uma figura pura, de caráter quase inatingível, Grace (o nome não é à toa) é muito mais símbolo do que personagem, uma vez que pouco se sabe sobre quem ela é de fato.

Inicialmente, essa estratégia é compreensível como forma de pôr o espectador no lugar de Jo, completamente fascinado por essa figura enigmática, escondida do mundo exterior pelo dossel branco de sua cama (qualquer semelhança com uma vestal romana não é mera coincidência), isolada em um paraíso que paira sobre o resto do vilarejo (a fotografia das cenas ambientadas no casarão do dono da plantação é notadamente diferente da do resto do filme, apresentando uma “suavidade” quase onírica). Todavia, posteriormente, essa camada idealizada não é desconstruída; pelo contrário, Grace se torna ainda mais insignificante com a chegada de Reyes (Jim Caviezel), um médico que chega à cidade e que logo rivaliza profissionalmente com Doc e romanticamente com Jo.

A partir daí, o filme se perde em exaustivas disputas entre bem e mal protagonizadas por um vilão tão cartunesco que por pouco não enrosca a ponta do bigode enquanto explica os seus planos maléficos. Em teoria, esse tipo de maniqueísmo é típico do gênero e, portanto, por si só não deveria prejudicar o longa como um todo. Entretanto, a introdução de Reyes na trama acaba atrapalhando o desenvolvimento dos relacionamentos apresentados até então, como também impede que outras ligações afetivas mais promissoras possam ser devidamente exploradas: a relação entre Grace e Srta. Hanabusa (Rumi Oyama), sua tutora japonesa, por exemplo, poderia ter sido uma ótima forma de acrescentar mais camadas à protagonista feminina do longa, mas, infelizmente, os roteiristas pouco se interessam por essa abordagem.

No final das contas, “Meu Amor por Grace”, assim como as piores tramas folhetinescas, é uma experiência frustrada. Começa como uma história água-com-açúcar pouco original, mas minimamente competente, e termina como uma sucessão de escolhas ruins e preguiçosas que beiram o ridículo.


Imagens e vídeo: Divulgação/Elite Filmes

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