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Crítica: Meu Anjo

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
23 de outubro de 2018 3 Mins Read
“É engraçado. Muitas crianças francesas nunca viram o mar. Elas nem devem saber que existe.”

3438697.jpg r 1920 1080 f jpg q xEm uma constatação aparentemente banal, Marion Cotillard (“Piaf, Um Hino ao Amor”) dá sentido ao seu mais novo filme,“Meu Anjo” (Gueule d’ange, 2018). Sim, como afirma a personagem Marlène, muitas crianças jamais viram o mar. A que mar, contudo, ela se refere? Seriam apenas as águas costeiras? Provavelmente não. Trata-se, acima de tudo, de uma metáfora: um lugar de liberdade, onde horizontes se tornam possíveis.

A hipótese desse significado simbólico ganha força, ainda, se considerado o plano final. O som de “Sans Toi”, canção eternizada por Corinne Marchand em “Cléo de 5 às 7” (Cléo de 5 à 7, 1962), de Agnès Varda, acompanha o desfecho da história. Na letra, o eu lírico se compara a uma ilha deserta, coberta pelo mar (“Comme une île déserte / Que recouvre la mer”). Longe de estabelecer horizontes, portanto, as águas podem, ao contrário, enturvá-los. Sem o amparo de uma pessoa amada (“Sans toi”), em outras palavras, tem-se a desorientação – “Minhas praias estão girando” (“Mes plages se dévident”), na música.

A ideia de um desamparo, por sinal, caracteriza o longa-metragem desde o ponto de partida. Na primeira cena, Marlène deita-se ao lado da filha, Elli (Ayline Aksoy-Etaix), e pergunta se a garota a ama. À apresentação de ambas segue-se um casamento. É a “quinta chance” de a protagonista encontrar um amor: talvez clame até por um “ato de misericórdia”, como anuncia o karaokê. Em pouco tempo, no entanto, a tentativa revela-se falha. Descoberta uma traição, o casamento se desfaz. Um segundo desamparo, então, toma conta da narrativa.

Sem pai, Elli enfrenta também a negligência da mãe. Abandonada em casa, a menina, de apenas oito anos, espelha-se na conduta da genitora para sobreviver. Na falta de um horizonte, para melhor desenvolver a metáfora do mar, comporta-se como a sua única referência: impregnada de perfume, sempre maquiada e viciada em uísque. Nesse momento, a diretora e roteirista Vanessa Filho introduz uma nova e simbólica personagem.

Julio (Alban Lenoir), um mergulhador aposentado, representa tanto uma figura paterna quanto um amor platônico. Mais que por exercer determinado papel narrativo, porém, ele merece destaque por encerrar a metáfora. Impedido de mergulhar por um problema cardíaco, Julio incorpora a contradição entre a liberdade e os perigos oferecidos pelo mar. Se, por um lado, horizontes se abrem, por outro, é fácil perder-se em meio a eles. Nessa lógica insere-se, também, a própria atitude de Marlène: sua constante busca por um amparo resulta em uma total desorientação.

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“Minha mãe morreu”, diz Elli a uma colega de escola. A morte, nesse contexto, significa não mais que uma perda de rumos. Antes, Marlène achava curioso muitas crianças francesas nunca terem visto o mar. Agora, sua própria filha encontra-se nessa condição. O desamparo e o medo da “polícia das crianças” – o conselho tutelar, na linguagem infantil – enturvam quaisquer horizontes, apesar de mãe e filha viverem à beira mar.

“Não conte a ninguém”, pede a menina após anunciar a morte simbólica. “Por quê?”, pergunta a amiga. “Eles descartam crianças que estão sozinhas”. A força do verbo usado, descartar, nivela humanos e resíduos. Denuncia, assim, uma lógica excludente, que desumaniza as personagens. Contra isso, Vanessa Filho resiste.

Comandada pela expressiva Aksoy-Etaix, a estreia da cineasta francesa concorreu ao prêmio Um Certo Olhar do último Festival de Cannes. Chega ao Brasil cinco meses depois, em um contexto de relações desumanizadas. Nesse cenário, ainda que acima do tom, “Meu Anjo” impressiona por sua sinceridade.

* O filme estreia dia 25, quinta-feira.

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Tags:

Cinema FrancêsDramaMarion Cotillard

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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