Crítica: A mulher de preto

Terror à moda antiga

Desvencilhar-se de um papel interpretado por anos pode ser bem difícil, principalmente quando o ator cresceu junto com o personagem. Daniel Radcliffe, no entanto, se saiu muito bem em seu primeiro filme depois da saga Harry Potter. Em “A mulher de preto”, ele é Arthur Kipps, um jovem viúvo, pai de um lindo menino, que por ainda sofrer intensamente a perda da esposa vem tendo problemas em seu trabalho como advogado. Sua última chance para continuar na firma é cumprir a função de viajar até a lúgubre mansão Eel Marsh House e coletar vários documentos pertencentes à falecida proprietária, Sra. Alice Drablow, uma viúva cujo filho morreu ainda criança.
Sua recepção no vilarejo não é das melhores. É visível que todos querem vê-lo pelas costas o mais depressa possível. Nem mesmo consegue vaga na estalagem Gifford Arms, mas a esposa do dono o hospeda no sótão – o mesmo sótão que vemos no começo do filme, quando três meninas, parecendo em transe, abandonam a brincadeira com suas bonecas e saltam pela janela.

Ao visitar a Eel Marsh House, Arthur vê uma mulher de preto, e logo em seguida uma garota das redondezas morre. Logo, entendemos a hostilidade dos moradores: quando alguém vê a tal aparição, crianças morrem. São vários os pais que perderam filhos ali, até mesmo Samuel Daily (Ciarán Hinds) que pensa que tudo não passa de superstição e ignorância, e por este motivo se dispõe a ajudar Arthur.

O filme segue a linha dos clássicos de terror dos anos 50, em que o importante era a atmosfera de suspense e a ambientação assustadora – como a da mansão, com teias de aranha e brinquedos antigos que dão arrepios só de olhar. Imaginem então quando se mexem sozinhos como se alguém lhes tivesse dado corda. Não há o uso de efeitos especiais exagerados nem banho de sangue ou outros recursos mais explícitos que acabam gerando mais nojo do que medo. Seria muito interessante se mais filmes seguissem essa linha hoje em dia.

O roteiro de Jane Goldman é baseado no livro de Susan Hill e não há muitos diálogos, mas isso não é um problema. É dito somente o essencial; o que importa mesmo é envolver o espectador na trama, a jornada solitária e insistente de Kipps em uma casa velha e isolada. Talvez sua busca dentro da mansão pudesse ser reduzida em alguns minutos; embora haja suspense e expectativa, há também tempo excessivo dedicado a isso.

As locações e a fotografia tem papel fundamental neste longa. O caminho sinuoso que leva até a mansão – e que desaparece por algumas horas quando a maré está alta – é mostrado em belas tomadas feitas do alto. A paisagem está constantemente coberta pela névoa; o rosto pálido e os olhos claros do jovem advogado se misturam com os tons azulados e melancólicos do filme.

O diretor James Watkins acertou já na abertura do longa, com a cena das meninas suicidas. Esteticamente interessante, com detalhe nos brinquedos de época: bonecas, xícaras, bule – além do figurino das três. Instigante, através do movimento orquestrado que as meninas fazem e da câmera que se afasta. Uma atuação a ser destacada é a de Janet McTeer, como a Sra. Daily, que mentalmente afetada pela morte do filho, parece incorporá-lo como médium e faz desenhos estranhos, além de tratar seus cães (“os gêmeos”) como crianças.

“A mulher de preto” é uma produção da Hammer, criada na década de 30 e responsável por incontáveis clássicos de terror. Tendo interrompido os trabalhos na década de 80, voltou em 2010 com “Deixe-me entrar”, um remake do filme sueco de 2008 “Deixa ela entrar”. Outras produções recentes são “A inquilina” (com Hilary Swank) e “A marca do medo”.


Neuza Rodrigues

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