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CríticaFilmes

Crítica: Nas Estradas do Nepal

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
13 de fevereiro de 2017 3 Mins Read

184699.jpg r 1280 720 f jpg q xEm toda a minha vida cinéfila foi a primeira vez que assisti a uma produção vinda do Nepal.  Mesmo em todos os festivais de cinema, nunca houve um filme desse país que me chamasse à atenção. Este “Nas Estradas do Nepal” ganhou distribuição no Brasil provavelmente por causa do prêmio de melhor filme da semana da crítica no festival de cinema de Veneza em 2015 e por ter sido escolhido pelo Nepal para tentar uma vaga no Oscar 2017.

A narrativa é bem simples: em uma aldeia no norte do Nepal, Prakash e Kiran, dois amigos inseparáveis apesar da diferença de casta, decidem criar uma galinha para ganhar dinheiro com a venda dos ovos. Um dia, a galinha some. Para encontrá-la, eles partem em viagem durante a guerra civil que aconteceu no país de 1996 até 2006.

O estreante em longa metragem Min Bahadur Bham desenvolve seu filme de forma semi documental. Os longos planos mortos, seguidos de suaves movimentos de câmera são construídos para explanar a vida de pessoas simples que estão no meio da guerra entre uma guerrilha com preceitos Maoistas e o governo. O estilo escolhido pelo diretor serve ao bucolismo das cenas passadas nas montanhas e também para impor o tom realista da história, afinal, tratam-se de personagens fictícios em acontecimentos baseados em fatos. A fotografia entrega belas sequencias, extraídas das paisagens naturais.

Os efeitos da guerra na população e todo lado emocional da infância inserida nesse contexto são prejudicados pelo elenco, que é todo formado por pessoas que, provavelmente, são moradores da aldeia onde o filme foi rodado e não por atores profissionais. Então, muitas vezes há a impressão de que o roteiro está sendo lido em tela e não atuado, o que traz uma sensação artificial para uma história que pretende ser mostrada de forma realista.  O diretor e também roteirista do filme cria diálogos que pretendem trazer alto grau de dramaticidade, mas fica limitado pela capacidade de seus atores. Com isso, cenas que eram para causar choro na platéia são, por vezes, cômicas. Já houveram situações em que elencos amadores que proporcionaram vida a personagens que, talvez se feitos por atores profissionais não tivessem o mesmo impacto, contudo, infelizmente, não é esse o caso aqui.

20161213 05 nas estradas do nepal papo de cinema

O roteiro também escorrega em não se decidir em qual caminho deve tomar. Temos o drama do garoto e sua galinha, o da irmã do garoto que deixa a aldeia para se juntar à guerrilha, o do seu pai e também outros personagens que não são importantes para a suposta trama principal. Há até sequências líricas de sonhos do garoto que não se encaixam na proposta inicial. Durante a uma hora e meia de projeção todos esses personagens são lançados em tela, sem que haja nenhum efeito no final. As boas intenções da produção são louváveis, mas não atingem os propósitos talvez imaginados pelos seus realizadores. A tal viagem em busca da galinha só se realiza no terceiro ato, de forma bem comprimida; transformando o que era para ser uma viagem de descobertas e perigos em algo banal. Só serve mesmo para mostrar algumas sequências de batalha entre tropas do governo e da guerrilha, que de tão mal filmadas torcemos para que acabem logo. No final da projeção há letreiros mostrando em números o resultado dessa guerra, talvez só eles fossem necessários para gerar comoção.

O cinema precisa que  novas culturas contém as suas histórias, por isso torço para que mais filmes sejam feitos no Nepal e em outros países sem tradição cinematográfica. Culturas podem ser mostradas para o mundo, trazendo um pouco de novidade para o que estamos acostumados em ver na tela grande. “Nas Estradas do Nepal” não funcionou para mim, mas será fantástico se ele abrir novas portas.

 

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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