Crítica: No Andar De Baixo

Uma tentativa de ser Polanski
 

17-no-andar-de-baixo-6-9Você conhece seus vizinhos? Até onde iria para ser feliz? Seria capaz de fazer qualquer coisa para conseguir realizar um objetivo? Essas são algumas das questões levantadas do novo longa de David Farr, o suspense psicológico “The Ones Below”, título original em inglês, que ainda não tem data de estreia no Brasil e provavelmente pode ir direto para a as plataformas de Streaming e/ou Home Vídeo.

Kate (Clémence Poésy) e Justin (Stephen Campbell Moore) são um casal de classe média alta que mora no subúrbio de Londres e estão esperando não só seu primeiro filho, mas também a mudança dos novos inquilinos para o apartamento do andar debaixo. Eles demoraram muito para tomar a decisão de ter um bebê, mas Jon (David Morrissey), um confiante homem de negócios, e Teresa (Laura Birn), uma autônoma, os novos vizinhos, tentaram mais de uma vez sem sucesso. Quando se mudam, eles tentam ser amigos, mas o envolvimento entre os casais acaba se tornando uma batalha psicológica de vontades e um suspense sobre obsessão materna.

O roteiro, que também é assinado pelo diretor, é visivelmente uma tentativa, um pouco frustrada, de ser Polanski. Em alguns pontos ele até consegue, mas o trabalho do mestre é muito forte visualmente para ser alcançando no terceiro filme de Farr. Temos uma boa estrutura narrativa, tanto escrita quanto visual, uma atmosfera plástica e bizarra que dá um bom tom as performances, mas ainda falta muito. De sua filmografia “Hanna”, lançado em 2011, que foi seu segundo longa, ainda é a sua melhor direção e mostra mais sua identidade como diretor.

Podemos até ter dois casais no filme como protagonistas, mas o casamento perfeito aqui é na parte técnica, entre o Design de Produção, de Francesca Balestra e Di Mottola, e o Figurino de Sarah Blenkinsop. O primeiro nos dá duas atmosferas de extrema representatividade para compreender as personas em seu habitat natural. Enquanto Kate e Justin possui um apartamento relativamente organizado, em tons cinzas e muita madeira, como representação da razão e força entre o casal, Jon e Teresa chegam como uma fantasia colorida e clean, predominada pela estabilidade do azul e o chamariz do amarelo. No decorrer do filme vemos essas oníricas estruturas visuais ruindo junto com o figurino, que absorve e demonstra as “camadas” de cada um, ali apresentados.

No Andar De Baixo

Outro ponto interessante do filme é a direção de fotografia de Ed Rutherford que consegue trabalhar a estabilidade de forma sutil a ponto de retratar a instabilidade dos personagens. Ele também consegue dar o tom frio de forma coerente em sua estrutura de cores e ainda explora a possibilidade de existir beleza na fotografia estourada pelo reflexo da luz.

Clémence Poésy vem inquietante e até surpreendente em seu papel, mesmo não sendo uma atriz das mais memoráveis até o momento. Já Stephen Campbell Moore, serve como “apoio” para fazer a Kate de Poésy crescer na trama, e o faz, ainda que pudesse ter sido realizado de uma forma melhor. David Morrissey vem como uma versão classuda de seu personagem “O Governador” de The Walking Dead e em nada surpreende, ao contrário de Laura Birn que vem meio espalhafatosa e acaba ganhando um enorme destaque com a profusão psicológica de Teresa.

“No Andar De Baixo”, deixa um pouco a desejar embora seja um exemplar regular para o audiovisual. Um dos maiores pontos críticos é o fato do diretor ter escolhido explicar todos os detalhes finais e ter perdido o ponto certo para acabar sua história de maneira verdadeiramente intrigante. Porém, se você é do tipo que não confia em ninguém, o longa vai ser um prato cheio para a sua paranoia conspiratória.

*O filme ainda não possui trailer com legendas em português e foi visto durante o Festival do Rio 2016.

Crítica: No Andar De Baixo
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