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CríticaFilmes

Crítica: O Casamento de Ali

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
5 de junho de 2018 3 Mins Read
“Uma história verdadeira. Infelizmente.”

O CASAMENTO DE ALI 2

Semelhantes em muitos aspectos, duas biografias travestidas de comédia romântica nasciam em pólos opostos do globo. Na América do Norte, “Doentes de Amor” (The Big Sick, 2017) contava o romance entre o ator paquistanês Kumail Nanjiani e a estadunidense Emily V. Gordon. Na Oceania, por sua vez, o iraniano Osamah Sami transformava em filme sua paixão pela australiana de família libanesa Dianne. Resultado desse projeto, “O Casamento de Ali” (Ali’s Wedding, 2017) chega à Netflix brasileira esta semana.

Como anuncia de início um voice-over, três mentiras moldaram a vida do protagonista, Ali (Sami). A primeira delas aconteceu antes mesmo de seu nascimento: amigos do pai, Mahdi (Don Hany), fingiram-se de guardas de Saddam Hussein para libertá-lo da prisão. A família mudou-se, então, para o Irã, onde enganou a si mesma: acreditou poder viver como iraquiana no novo país. A terceira e última mentira, por fim, estabelece o ponto de partida para o longa-metragem. Com medo de decepcionar o rigoroso pai, líder de uma mesquita local, Ali esconde a reprovação no vestibular de medicina. Fingindo-se de estudante, frequenta as aulas e aproxima-se de Dianne (Helana Sawires). Apesar do sentimento mútuo, a falta de aprovação das famílias impossibilita o romance. Os pais do jovem, de outro modo, acertam um indesejado casamento com Yomna (Maha Wilson), do qual ele tenta a qualquer custo fugir.

Assim como Nanjiani, Sami interpreta o protagonista e assina o roteiro. À diferença de “Doentes de Amor”, contudo, a mulher retratada não participa da produção. Ao passo que Emily V. Gordon escreve a história com o marido, Sami tem como co-autor outro homem, o mais experiente Andrew King (“Até o Último Homem”). Falta, dessa forma, um maior aprofundamento de Dianne e das demais personagens femininas. Centrado na figura de Ali, o enredo erra, ainda, ao não precisar um recorte. Mal trabalhados, elementos como a descoberta do paradeiro da avó e a morte do irmão não adicionam novas camadas narrativas, mas apenas evidenciam um texto cheio de pontas soltas. “O Casamento de Ali” resulta, com isso, em um superficial retrato do iraniano.

O CASAMENTO DE ALI

Alguns bons momentos, no entanto, compensam o todo pouco coeso. Em um deles, Ali não sabe como negar o noivado na tradicional cerimônia do chá. Testa, portanto, a reação dos envolvidos enquanto coloca cubos de açúcar em sua xícara. Além dessa bem-humorada sequência, outra se destaca por seu caráter crítico. Convidado para atuar em Detroit, o jovem anima-se com a possibilidade libertadora de viver nos Estados Unidos. Diante do preconceito, entretanto, o sonho rapidamente se desmancha. Transitando entre a comédia e o drama, Sami revela-se um competente ator.

A direção de Jeffrey Walker (“Modern Family”), finalmente, trabalha com soluções audiovisuais interessantes. Quanto ao som, o uso de uma trilha diegética demonstra criatividade. Logo após a cerimônia do chá, por exemplo, o barulho de chuva corresponde tanto ao estado emocional do protagonista quanto à condição climática da cena posterior. Ademais, Ali aparece em algumas cenas tocando os instrumentos que compõem as músicas de Nigel Westlake (“Miss Potter”). Já em termos imagéticos, a repetição do entrelaçar de dedos traduz com simplicidade o carinho entre as personagens.

Conduzido por carismáticas interpretações, “O Casamento de Ali” oferece, enfim, um divertido entretenimento familiar. Ainda que não faça frente ao similar “Doentes de Amor”, o sucesso em festivais australianos indica uma boa recepção do público. Deve, assim, conquistar o coração dos assinantes da plataforma de streaming.

* O filme estreia na Netflix dia 8, sexta-feira.

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6.4
5

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Tags:

AustráliaCine BiografiaComédiaComédia Romântica

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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