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Crítica

Crítica: O Casamento de Ali

“Uma história verdadeira. Infelizmente.”

Semelhantes em muitos aspectos, duas biografias travestidas de comédia romântica nasciam em pólos opostos do globo. Na América do Norte, “Doentes de Amor” (The Big Sick, 2017) contava o romance entre o ator paquistanês Kumail Nanjiani e a estadunidense Emily V. Gordon. Na Oceania, por sua vez, o iraniano Osamah Sami transformava em filme sua paixão pela australiana de família libanesa Dianne. Resultado desse projeto, “O Casamento de Ali” (Ali’s Wedding, 2017) chega à Netflix brasileira esta semana.

Como anuncia de início um voice-over, três mentiras moldaram a vida do protagonista, Ali (Sami). A primeira delas aconteceu antes mesmo de seu nascimento: amigos do pai, Mahdi (Don Hany), fingiram-se de guardas de Saddam Hussein para libertá-lo da prisão. A família mudou-se, então, para o Irã, onde enganou a si mesma: acreditou poder viver como iraquiana no novo país. A terceira e última mentira, por fim, estabelece o ponto de partida para o longa-metragem. Com medo de decepcionar o rigoroso pai, líder de uma mesquita local, Ali esconde a reprovação no vestibular de medicina. Fingindo-se de estudante, frequenta as aulas e aproxima-se de Dianne (Helana Sawires). Apesar do sentimento mútuo, a falta de aprovação das famílias impossibilita o romance. Os pais do jovem, de outro modo, acertam um indesejado casamento com Yomna (Maha Wilson), do qual ele tenta a qualquer custo fugir.

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Assim como Nanjiani, Sami interpreta o protagonista e assina o roteiro. À diferença de “Doentes de Amor”, contudo, a mulher retratada não participa da produção. Ao passo que Emily V. Gordon escreve a história com o marido, Sami tem como co-autor outro homem, o mais experiente Andrew King (“Até o Último Homem”). Falta, dessa forma, um maior aprofundamento de Dianne e das demais personagens femininas. Centrado na figura de Ali, o enredo erra, ainda, ao não precisar um recorte. Mal trabalhados, elementos como a descoberta do paradeiro da avó e a morte do irmão não adicionam novas camadas narrativas, mas apenas evidenciam um texto cheio de pontas soltas. “O Casamento de Ali” resulta, com isso, em um superficial retrato do iraniano.

Alguns bons momentos, no entanto, compensam o todo pouco coeso. Em um deles, Ali não sabe como negar o noivado na tradicional cerimônia do chá. Testa, portanto, a reação dos envolvidos enquanto coloca cubos de açúcar em sua xícara. Além dessa bem-humorada sequência, outra se destaca por seu caráter crítico. Convidado para atuar em Detroit, o jovem anima-se com a possibilidade libertadora de viver nos Estados Unidos. Diante do preconceito, entretanto, o sonho rapidamente se desmancha. Transitando entre a comédia e o drama, Sami revela-se um competente ator.

A direção de Jeffrey Walker (“Modern Family”), finalmente, trabalha com soluções audiovisuais interessantes. Quanto ao som, o uso de uma trilha diegética demonstra criatividade. Logo após a cerimônia do chá, por exemplo, o barulho de chuva corresponde tanto ao estado emocional do protagonista quanto à condição climática da cena posterior. Ademais, Ali aparece em algumas cenas tocando os instrumentos que compõem as músicas de Nigel Westlake (“Miss Potter”). Já em termos imagéticos, a repetição do entrelaçar de dedos traduz com simplicidade o carinho entre as personagens.

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Conduzido por carismáticas interpretações, “O Casamento de Ali” oferece, enfim, um divertido entretenimento familiar. Ainda que não faça frente ao similar “Doentes de Amor”, o sucesso em festivais australianos indica uma boa recepção do público. Deve, assim, conquistar o coração dos assinantes da plataforma de streaming.

* O filme estreia na Netflix dia 8, sexta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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