7 de dezembro de 2019
“A literatura é um luxo, mas a ficção é uma necessidade”

Essa constatação, feita logo no início de “O Homem Ideal?”, apresenta o raciocínio que rege a vida do professor universitário e escritor Rubén (Carles Alberola), protagonista do filme. Numa tentativa de controlar ao máximo a sua própria existência, a personagem principal constantemente filtra seus pensamentos pelo prisma da ficção. Desde uma inofensiva corrida de bicicleta contra um grupo de adolescentes até às mulheres que lhe são apresentadas por um casal de amigos, tudo que passa pelos olhos e ouvidos de Rubén é idealizado e/ou minuciosamente hipotetizado, numa tentativa de ora trazer mais emoção para sua vida, ora evitar desgastes desnecessários.

Contudo, essa atitude, como a própria personagem afirma, tornou a sua existência uma espera eterna. Nessa busca por pessoas e situações ideais, que se encaixem perfeitamente em suas expectativas, Rubén pouco vive o momento e as coisas como elas efetivamente são. Essa alienação frente à realidade é tanta que, em determinado momento, ele confessa: “sonhei e planejei tanto as coisas, que pensei tê-las vivido”.

Logo, como proposta, “O Homem Ideal?” apresenta um questionamento existencial interessante, porém, como execução, o projeto fica aquém de seu potencial. Baseado em uma peça encenada pelo próprio Carles Alberola em 2014 (que além de estrelar, também roteiriza e dirige a adaptação cinematográfica), “O Homem Ideal?” não esconde a sua origem teatral. Tirando um breve prólogo que se desenrola em meio aos créditos iniciais, a narrativa toda se desenvolve dentro do apartamento de Rubén, onde o protagonista e seus amigos Jaume e Raquel (Alfred Picó e Cristina García) organizam um jantar para conhecer uma possível pretendente para o escritor e professor.

Já é lugar-comum apontar a dificuldade em transportar obras dos palcos para a tela do cinema, uma vez que muitos são os filmes que não conseguem superar a sensação de “teatro filmado”. Obviamente, há exceções à regra: seja por tomarem a desconexão entre peça e filme como força-motriz do projeto, assumindo a artificialidade inerente a ambos os meios; seja por encontrarem no texto original elementos que possam ser exacerbados e aprofundados através das particularidades do cinema. “O Homem Ideal?”, porém, não é um desses casos. Esteticamente, o filme de Alberola é tão convencional que é difícil encontrar o quê a obra ganha ao ser transposta para a sétima arte.

Entretanto, esse problema não seria tão grande caso o texto fosse forte o suficiente para carregar o longa, o que também não é o caso. No geral, o roteiro de Alberola é bastante aceitável, construindo bem o ponto-de-vista da personagem principal e estabelecendo de forma convincente a amizade entre as duas personagens masculinas. Contudo, as relações entre Rubén e as irmãs Raquel e Pilar (Rebeca Valls) são mais inconsistentes e apresentam algumas situações que soam demasiadamente forçadas. De certa forma, pode-se entender esses momentos pouco convincentes como um meio de pôr em dúvida a veracidade dos acontecimentos (tudo pode ser fruto da imaginação de Rubén, afinal de contas), mas ainda assim, eles não funcionam. Parecem mais uma maneira um pouco desesperada de encaminhar a trama às conclusões desejadas do que um desenvolvimento, de fato, verossímil.

No final das contas, “O Homem Ideal?” possui um elenco muito bem entrosado e alguns momentos envolventes e divertidos que fazem o longa valer a pena como um entretenimento descompromissado. Além disso, o final ambíguo complica um pouco as intenções do protagonista, pondo em dúvida a sua vontade de mudança. Mesmo assim, sente-se que, como um todo, o resultado poderia ter sido melhor.


Imagens e vídeo: Divulgação/Fênix Filmes

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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