Crítica: O Olho e a Faca

“Nem tudo nessa vida é otimismo, meu filho, viu? A gente tem que estar preparado … para tudo”

Nos derradeiros minutos, mesmo o mais desatento dos espectadores já estará ciente do que trata “O Olho e a Faca”, tamanha a redundância de seus temas. Em um bar de iluminação anilada, ao som de um gaiteiro, Roberto Araujo (Rodrigo Lombardi) reencontra os seus antigos subordinados da plataforma de petróleo POLVO-A. O azul onírico e o subsequente despertamento não deixam dúvidas: o protagonista sonhava. Sonhava com colegas sorridentes. Sonhava com uma camaradagem interditada pela relação patrão-empregado. “Companheirismo”, afinal, é questão de ocasião”, bem alertara o superintendente Dutra (Luis Melo) antes de promovê-lo.

Concernido, por um lado, com os ditames do capital internacional, o cineasta Paulo Sacramento (“Riocorrente”) revela, por outro, pouco – ou nenhum – interesse pela realidade local. Talvez isso explique a confusão espacial que dispõe lado a lado o Estádio do Pacaembu, em São Paulo, e a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, vizinhos improváveis em uma geografia incerta. Talvez isso explique, também, a estrangeira sensação presente no decorrer dos quase 100 minutos.

A começar pelos diálogos. Longuíssimas, as falas carecem tanto de organicidade que soam como se dubladas não pelos próprios atores – recurso requerido pelas locações barulhentas -, mas por outros, exteriores ao filme. Certo estrangeirismo manifesta-se, ainda, nas atitudes da personagem principal. Uma banal ilustração: Roberto ensina o filho adolescente a dirigir, como se ambos vivessem nos Estados Unidos, onde se aprende com 16 anos e se elimina a necessidade de autoescola. Outra: o animal escolhido para simbolizar as suas angústias é o corvo, eternizado, especialmente a partir de Edgar Allan Poe, na literatura anglófona. Ave estranha em terras tupiniquins.

Representante de uma certa elite genérica, torna-se difícil, portanto, identificar-se com Roberto. Sua solidariedade com os cotrabalhadores jamais se mostrara verdadeira o suficiente a ponto de justificar os conflitos. As querelas familiares, ainda mais precárias, se fincam em uma verborragia desconfiante do poder do gesto. Diante de uma provável psicopatia do filho, por exemplo, não se impõe nenhuma consequência além da ameaça – sequer concretizada – de cancelar o seu intercâmbio. Outro exemplo, o retrato da relação extraconjugal não aparenta objetivar alguma coisa senão filmar o corpo nu da amante, vivida por Débora Nascimento (“Avenida Brasil”).

Se peca na direção de atores, Sacramento coleciona, contudo, um par de acertos em termos audiovisuais. Merecem elogios, nesse sentido, a fotografia de José Roberto Eliezer (“Chatô – O Rei do Brasil”) – especialmente nas cenas externas da plataforma – e a pós-produção sonora, a cargo dos editores Miriam Biderman e Ricardo Reis (“Reza a Lenda”) e do mixador André Tadeu (“2 Coelhos”). Infelizmente, tal competência técnica não acompanha um projeto melhor estruturado.

Resta, assim, um filme irregular, cambaleante entre o enfadonho e o constrangedor. O voice-over na abertura – “O olho tem uma superioridade sobre a faca. Ele a vê chegar” –  e o monólogo interpretado por Caco Ciocler (“2 Coelhos”) no encerramento, em especial, resultam embaraçosos. Se a primeira impressão é a que fica, “O Olho e a Faca” soma um ponto negativo. Se é a última, no entanto, o longa-metragem soma dois.

* O filme estreia dia 27, quinta-feira.


Imagens e Vídeo: Distribuição/California Filmes

Crítica: O Olho e a Faca
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