Crítica: Filhas do Sol

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O mundo é paradoxal: se por um lado há uma grande luta para que as demandas feministas sejam atendidas, o que significa mais igualdade e respeito, por outro, a taxa de feminicídios teima em subir ano a ano, e países com visões deturpadas de suas religiões tratam as mulheres como escravas inferiores, em sociedades extremamente misóginas dominadas pelo patriarcado. Há situações que é preciso ir à guerra em prol da liberdade feminina. É isso que mostra “Filhas do Sol”, da cineasta Eva Husson, ao seguir um grupo de guerrilheiras que lutam contra a opressão do ditador Bashar al-Assad.

Essas mulheres Curdas possuem um passado de barbárie, principalmente sua líder Bahar (Golshifteh Farahani), que teve os homens de sua família massacrados e foi vendida junto da irmã como escrava sexual. Assim que consegue fugir, Bahar entra para um grupo de resistência e descobre que o seu filho ainda está vivo. O roteiro da própria Husson traz os traumáticos acontecimentos em flashbacks, ao mesmo tempo que acompanha a missão de tomar um vilarejo das forças do governo. Bahar tem especial interesse nesse local porque ali há uma escola infantil onde pode estar seu filho. Tudo é acompanhado por Mathilde (Emmanuelle Bercot), uma veterana jornalista e fotógrafa de guerra. Mathilde também sente na pele o sofrimento de estar longe da filha e do marido.

Evidentemente, há cenas de conflitos e tiros são disparados, porém não é do interesse de Husson apelar para o “glamour” da guerra e transformar as personagens em heroínas invencíveis. São nos diálogos que o filme tira a sua melhor matéria prima, proporcionando comoção com a história de sua protagonista. Essa guerreira é a inspiração para as outras e lidera sua tropa com um discurso que termina com a forte frase: “La Femme, la Vie, la Liberté”, claro que dita em árabe, mas repetida em francês no final do filme.A ótima atuação de Farahani, que parece carregar todo o sofrimento nas costas, é primordial para a imersão naquele mundo, expondo tristeza em um semblante de alerta e dor. O ambiente ajuda a atriz em sua performance, já que o palco é um amontoado de destroços que sobraram das antigas cidades. A beleza daquelas mulheres iluminadas pelo sol sempre presente contrasta com a poeira, a fuligem e o sangue que as cercam, e por isso o título “Filhas do Sol” não poderia ser mais adequado.

É delas que emana os últimos raios de esperança em uma terra devastada. Seja por sua coragem de enfrentar um inimigo cruel ou pelo fato de ser delas a responsabilidade de carregar a vida de uma nova geração que pode acabar com a barbárie (uma das combatentes dá à luz em meio ao caos). Como mensagem, o longa é poderoso, como cinema pode incomodar o fato de ser arrastado em seu primeiro e segundo ato e por ter algumas encenações de batalhas mal executadas. Nada que tire a importância de uma obra que se propõe mostrar um lado pouco conhecido de uma guerra que parece não ter fim.

Filme visto durante o Festival Varilux de Cinema Francês


Imagens e Vídeo: Divulgação/ California Filmes

Crítica: Filhas do Sol
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