Quebrando tabus e renovando o estilo

No atual cenário corruptivo vivido por nosso país e em meio a situações extremamente abusivas toleradas, garganta abaixo, por grande parte da sociedade, o filme “Operações especiais” consegue marcar território com extrema notoriedade, se apoiando nesses e em outros assuntos importantes para construir uma narrativa inteligente e verossímil.

Após a criação e instalação das UPPs (Unidade de Policia Pacificadora) nas favelas do Rio de Janeiro, vários traficantes se viram obrigados a abandonarem seu espaço e migrarem para pequenas cidades, aos arredores da capital, a pena de serem presos. Atitude que possibilitou a continuidade do esquema vivido por muitos na época, ao mesmo tempo que mantinham certa distância da vigilância policial. Em meio a toda confusão gerada, o interiorizado município de São Judas do Livramento acaba sofrendo um embate entre criminosos e corruptos resultando na morte de duas crianças. A noticia, instantaneamente, torna-se alvo da mídia e o governo do estado direciona seus policiais mais honestos para uma operação especial que visa acabar com a corrupção da cidade e prender os culpados. Perdida dentro dessa loucura encontra-se Francis, uma ex-atendente de hotel, que decidiu ser policial por conta de alguns percalços mas, como trabalhava na parte burocrática, não imaginava que iria enfrentar tão logo a violência.

A produção do filme é de uma primazia absoluta! Além de abrir um pouco mais de espaço no empedrado caminho para gêneros diferenciados no Brasil consegue, ainda, realizar um projeto com extrema qualidade que serve de inspiração para futuros produtores.

Imagem: Divulgação/Paris Filmes

Com um roteiro original, leve e extremamente interessante, adentramos a vida de personagens céticos e outros em busca de redenção. Presenciamos de perto a provação vivida por Francis que é constantemente abalada por seus companheiros machistas mas, mesmo assim, disputa firmemente por seus direitos sem perder a razão. A teia é atada com cautela, esmiuçando cada ponto do filme, o que possibilita uma maior identificação do público com as cenas. Cada entrecho transporta-nos à um carrossel de emoções nos obrigando a conviver com ódio, pena e amor por essas personas que passam por diferentes revés durante o pouco tempo de trabalho na tal cidade.

A direção fica a cargo de Tomas Portella (responsável por “Isolados”) que surpreende buscando uma linguagem diferenciada e bastante moderna, causando forte tensão nos momentos mais apreensivos vividos pela personagem central. Não é difícil, em várias partes do filme, nos sentirmos dentro de um jogo de vídeo game como “Call Of Duty”.

Já o elenco parece ter sido escolhido a dedo, uma vez que cada personagem se encaixa, perfeitamente, a eles. O destaque maior é a revelação de Cléo Pires como atriz de ação. Ela nos convence a cada segundo em cena, transmutando-se de uma fase a outra com precisão. Em seguida temos Marcos Caruso, perfeito, na pele de um delegado honesto. O ator nos proporciona os melhores diálogos do filme. Já Fabricio Boliveira impressiona fazendo um policial nervoso com um passado complicado. Thiago Martins, Fabiula Nascimento e Antonio Tabet também convencem em seus personagens, mantendo a qualidade do elenco.

Com uma montagem impecável e ótima edição de som, quais deixam as cenas ainda mais realistas, “Operações Especiais” renova o gênero dentro no cinema brasileiro e possui grandes chances de fazer a diferença nas bilheterias ganhando, quem sabe, até mesmo uma continuação.


Imagens e vídeo: Divulgação/Paris Filmes


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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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