Crítica: Os Garotos Nas Árvores

O lado obscuro do amadurecimento
 

mv5bymi3yzzlnmitzwjmzc00ngfllwiwytctyjc1yjvhmzdjotg0xkeyxkfqcgdeqxvymjyyntazmw-_v1_sy1000_cr007001000_al_O que uma amizade representa para você? Quais as marcas deixadas nas pessoas que conviveu durante a época do colégio? Essa são algumas das muitas questões levantadas no primeiro longa do canadense Nicholas Verso, onde o rito de passagem, da adolescência à vida adulta, ganha um tom sombrio e sobrenatural.

O ano escolar está chegando ao fim e Cory (Toby Wallace) precisa escolher se vai para a NYU, estudar fotografia, ou se fica com sua gangue de Wolfs, liderada por Jango (Justin Holborow), sendo os reis da pequena cidade onde moram. É durante o Halloween que Cory terá que tomar sua decisão, mas o excluído Jonah (Gulliver McGrath) o convida para brincar, como faziam anos atrás quando ainda eram amigos. Na volta para casa, durante toda a brincadeira, o que era imaginação passa a ser real, ganhando proporções obscuras, e mudará o destino de ambos os garotos.

Para a estreia de Nicholas Verso em longa-metragens, ele resolveu apostar numa produção que mistura diversas atmosferas, mas isso fez com que se perdesse como roteirista e como diretor. Temos um filme teen sobre o rito de passagem para fase adulta, temos o suspense sobrenatural vindo de uma brincadeira infantil, temos a descoberta do amor e, por fim, um drama existencial. Com tantas cartas na mão, ainda que visivelmente saiba o que queria contar e como queria fazê-lo, a proposta acaba se perdendo um pouco e vemos a falta de confiança do diretor, sobre onde deveria terminar sua história.

A história passada no ano de 1997, traz consigo não só a aparência dos filmes da época, mas carrega em sua trilha sonora escolhas musicais populares da década que foram bem casadas com as cenas, conseguindo nos transportar à narrativa, tornando-as crucias para um bom desenvolvimento juntamente à trilha original composta por Shinjuku Thief.

Os Garotos Nas Arvores - Cena

Em paralelo, temos a excelente Direção de Fotografia de Marden Dean, que nos lembra muito, visualmente, as grandes e boas produções feitas na televisão britânica. Sua composição brinca com as cores, entrelaçando os tons quentes, como amarelo e laranja, ao lado sóbrio da obra, criando nuances frias e psicologicamente perturbadoras em determinados pontos. Se tem algo que assusta alguns momentos é a facilidade de Marden transformar as cores numa estética do medo.

Como um todo, o elenco é jovem e com rostos desconhecidos do grande público. Toby Wallace, que começa bem fraco, vê em seu personagem a chance de crescer e o faz, sendo uma generosa surpresa. Inicialmente não era crível que ele pudesse desenvolver a psiquê de Cory, mas temos um desenrolar que lhe serviu de gatilho para uma explosão na tela. Gulliver McGrath dá um ar Norman Bates para o pequeno Jonah, em seu desenvolvimento, ainda que seja mais do que previsível, ele consegue estabelecer a ideia do menino que perdeu o melhor amigo e que usou do imaginário para sobreviver aos recorrentes ataques de bullying.

Além dos protagonistas, Justin Holborow nos ambienta numa realidade que é bem recorrente à grupos juvenis, quando passamos a observa-los cuidadosamente. Como representação do líder da gangue, mantém a postura de controlador, mas em determinados momentos expõe uma multiplicidade em seu posicionamento sobre amizade, inveja e até mesmo desejo de ser e/ou possuir Cory. A única presença feminina de relevância é Mitzi Ruhlmann como o interesse romântico do protagonista. A personagem Romany é quem investe, flerta e até agride Cory para ele tenha pretensões maiores de vida, dando a ela uma postura independente e conhecedora de sua identidade e de forte representação feminina, ainda que, muitas vezes, caricata.

“Os Garotos Nas Árvores” (Boys In The Trees) consegue passar sua mensagem, mesmo tendo mais informações que o necessário. A alusão lúdica sobre as agressões sofridas, o estabelecimento de um diálogo pessoal de fácil identificação e a vívida necessidade de crescer, fazem dele um bom exemplar. Entre idas e vindas, o longa não assusta, mas nos deixa a refletir o que já fomos e como queremos ser lembrados por aqueles que um dia deixamos para trás.

Crítica: Os Garotos Nas Árvores
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