Crítica: Os Incontestáveis

Sendo o Brasil um país de dimensões continentais, tal qual os Estados Unidos, é curioso que filmes da categoria road movie nunca tenham sido muito feitos por aqui. Naturalmente é um estilo norte-americano, com bastante público e apelo por lá, mas que mostra características interessantes de contar histórias que raramente se vê por aqui. O alto número de estradas, de cidades, interiores pouco conhecidos e até mesmo de grandes cidades muito diferentes entre si. São fatores que existem tanto em uma nação quanto em outra e, de alguma forma, é o pano de fundo necessário para que road movies se façam existir e tenham seus pré-requisitos atendidos.

“Os Incontestáveis” vem, portanto, como uma experimentação dessa espécie de gênero no cinema nacional. É a simples narrativa de dois irmãos atrás de um antigo carro de seu pai, percorrendo intensa jornada para que tenham seu objetivo alcançado. O clima estabelecido é peculiar, contando com senso de humor muito próprio, e isso se dá já que o universo a ser explorado é o de lugares pouco conhecidos do Espírito Santo. Dessa forma, pelo bem ou pelo mal, “Os Incontestáveis” pode ser considerado um contundente retrato capixaba pelos próprios capixabas. O que é bastante problemático e principal sina da obra é falhar em conduzir bem aquelas ideias apresentadas, e é inclusive necessário sinalizar de que nem todas elas são boas em essência.

Em primeiro lugar, tudo parece muito caricato, em termos de atuações, de personagens e de situações. É evidente que a crítica social e o tom cru que são a base do que é proposto, porém de nada adianta querer se utilizar de dinâmicas de opressão e de figuras recorrentes no imaginário do interior brasileiro se são mal trabalhados. Por vezes, personagens são rasos demais e lembram até um pouco a função que figurantes poderiam ter na trama, como é o caso do antagonista ou de quaisquer coadjuvantes. Até mesmo os protagonistas são excessivamente toscos nos diálogos que produzem e nas atuações apresentadas, fator esse que fragiliza o cerne do filme.

Apesar disso, a fotografia é bem condizente do esperado para uma obra com características de um western road movies. Tons pastéis e áridos são vistos em grande quantidade, também ressaltados pelas locações e figurino mostrados em tela. Já vimos coisas parecidas e feitas com melhor qualidade na produção audiovisual brasileira, mas mesmo assim se faz um ponto a se destacar. Além disso, a trilha sonora que investe em sonoridades vindas de guitarras distorcidas e músicas semelhantes ao punk rock chamam a atenção pelo contraste que causa com a brasilidade do resto dos elementos.

“Os Incontestáveis” pode ter, por fim, boas inspirações, referências e intenções, mas falha ao colocar a maioria delas em prática. É muito difícil entender o que os realizadores queriam trazer com várias de suas decisões e isso afasta o público cada vez mais do filme durante a projeção. O ponto, aqui, não é ser alegórico ou metafórico, mas a forma com que esse tipo de direcionamento é escolhido. Certamente que é um longa que evoca reações de amor e ódio por conta de sua natureza.

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