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Crítica: Preacher – 1ª temporada

Da esquerda para a direita: Gilgun como Cassidy, Cooper como Jesse e Negga como Tulipa (crédito: Lewis Jacobs/Sony Pictures Televsion/AMC)

Série mantém o conceito da HQ de origem, sem medo de fazer mudanças

crédito: Imdb

Quando “Preacher” começou a ser publicada, em 1995, como mais uma série regular do selo Vertigo – linha de histórias em quadrinhos autorais, de conteúdo adulto, da DC Comics- a televisão ainda não era o lar de personagens problemáticos e narrativas violentas. As histórias em quadrinhos, por outro lado, já tinha ultrapassado essa barreira, tendo a própria Vertigo um papel importante nesse processo.

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20 anos depois, não é estranho que a série de Garth Ennis e Steve Dillon seja adaptada pela AMC. Por influência do fenômeno dos filmes e séries de super-herói, as HQs já alcançaram um público mais amplo e mesmo títulos alternativos, como “Hellblazer” e “Lucífer” encontraram seu espaço na grade americana. Com os padrões de bom gosto da TV mudados, toda a bizarrice e blasfêmia de Preacher já não assustam mais. Coube a Seth Rogen, Sam Catlin e Evan Goldberg fazer a adaptação.

A premissa se manteve praticamente a mesma do seu material de origem: Jesse Custer, um pastor de uma cidadezinha no sul dos EUA, com um passado criminoso, é possuído por uma entidade divina chamada Gênesis, que lhe dá o poder da Voz de Deus – capacidade de controlar qualquer criatura com suas palavras. Jesse pretende salvar as almas da sua comunidade, sem suspeitar que o plano do Céu para ele seja um pouco diferente do esperado.

crédito: Lewis Jacobs/Sony Pictures Televsion/AMC

Elenco reunido

Das mudanças provocadas pela troca de formato, a mais aparente é o local. Enquanto que nos quadrinhos o pastor abandona sua paróquia e cai na estrada nos primeiros volumes, na série (provavelmente por motivos financeiros) a primeira temporada se estabelece na cidade onde Jesse prega, Annville. A medida pode desagradar de primeira os fãs mais exigentes, porém permite que não só o protagonista, como o conceito da série, sejam apresentados de uma forma consistente. Cada um dos personagens – a prestativa Emily, o valentão Donnie Schenck e sua família, o xerife Root e o filho Eugene, o empresário Odin Quinncannon – ajuda a construir uma atmosfera sulista não apenas crível, mas que ganha a simpatia do espectador.

A escolha do elenco é o maior acerto, principalmente em relação ao trio principal, formado por Jesse, sua ex-namorada e antiga parceira de crimes Tulipa O’Hare, e o vampiro junkie irlandês Cassidy. Dominic Cooper incorpora perfeitamente as nuances e trejeitos do pastor, e Joseph Gilgun consegue dosar o humor e o sadismo que compõe seu personagem. No contexto atual de discussão de representatividade, a escolha de Ruth Negga, uma atriz negra, para uma personagem originalmente branca, é fundamental. Negga traz para sua Tulipa, menos frágil que a original, toda a força e humor necessários.

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Da esquerda para a direita: Gilgun como Cassidy, Cooper como Jesse e Negga como Tulipa (crédito: Lewis Jacobs/Sony Pictures Televsion/AMC)

Da esquerda para a direita: Gilgun como Cassidy, Cooper como Jesse e Negga como Tulipa

Dos personagens secundários, os destaques são Eugene (“Cara de Cu”) e Quinncannon, interpretados respectivamente por Ian Colletti e Jackie Earle Harley. Ambos também presentes nas HQs, embora em momentos distintos, são bem inseridos no núcleo de Annville, sem soar apenas como fan service para os leitores da HQ. O adolescente dócil  de Colletti provoca pena, por conta do rosto desfigurado e a rejeição da cidade, mas sem soar piegas e deixando espaço para que lados sombrios venham à tona. Quinncannon, o antagonista da temporada, começa apenas como um patrão sangue frio, para ceder aos poucos para uma crueldade bem próxima da vista nos quadrinhos.

O núcleo “divino”, porém, não funciona tanto. Os anjos  Deblanc e Fiore, os guardiões do Gênesis, são divertidos mas acabam deslocados para o telespectador que não tem a referência da HQ. Sem ser nomeado na série, o Santo dos Assassinos também acaba sobrando, pelo modo como sua narrativa é conduzida. Com certa economia no tempo de tela, a história e a figura do Santo teriam o impacto merecido.

Eugene, interpretado por Ian Collettu, ao lado do pai, o xerife Hugo Root, interpretado por W. Earl Brown. (crédito: Lewis Jacobs/Sony Pictures Televsion/AMC)

Eugene, interpretado por Ian Colletti, ao lado do pai, o xerife Hugo Root, interpretado por W. Earl Brown.

A maior façanha de “Preacher”, porém, está na adaptação de seu conceito. Mais do que uma simples ode aos Estados Unidos como terra dos sonhos, a HQ é uma história sobre segundas chances – não importa o quão falho ou excêntrico você seja.  Tanto no papel quanto na TV, Jesse  só quer deixar seu passado obscuro para trás e cumprir a promessa que fez ao pai, ser “mais um dos caras bons”. Sua busca em consertar a si mesmo e ao mundo é bem intencionada, mas ao manipular o livre-arbítrio alheio, provoca  danos (alguns irreparáveis). Embora não caia de cabeça na estranheza do material original, a série adapta a narrativa para os dias atuais de forma coerente, sem perder sua irreverência e humor negro.

Jackie Earle Haley como Odin Quinncannon (crédito: Imdb)

Jackie Earle Haley como Odin Quinncannon

“Preacher” termina seu primeiro ano do mesmo modo que o arco inicial dos quadrinhos: Jesse, Tulipa e Cassidy descobrem que Deus abandonou o Céu e sua criação, e deixam Annville, para encontrar o Criador e fazê-lo admitir sua irresponsabilidade. Com o destino da cidade selado de forma trágica, fica a promessa de que o trio deve seguir os destinos do material original. Menções a possíveis conflitos – o mistério sobre o assassinato do pai de Jesse, a breve aparição de uma certa organização secreta Graal, o interesse amoroso de Cassidy em Tulipa – são outras pistas para o futuro. O caminho já estabelecido, de todo modo, é extremamente promissor.

CRÍTICA: PREACHER (PRIMEIRA TEMPORADA)
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Sua formação é em cinema, e os interesses incluem televisão e quadrinhos. Nas horas vagas, faz tirinhas.

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