A discussão sobre a impressão de realidade proporcionada pelo cinema já gerou inúmeros livros e artigos. Alguns entendem que o cinema só pode se aproximar do “real” quando não há a interferência da montagem, outros dizem que é através da montagem que o cinema cria sua própria versão de realidade. Há também a regra sagrada da exibição em 24 quadros por segundo, ideal para enganar o cérebro humano e dar a ilusão de movimento.

Antigos teóricos que escreveram sobre o assunto ficariam chocados com uma nova forma de filmar e exibir os filmes: os famosos 48 quadros por segundo apresentado em “O Hobbit”. Essa técnica supera as discussões sobre a montagem ao apresentar uma emulação de transmissão ao vivo na tela grande, afetando o que todos entendem como cinema versus vida real.

Entretanto, Ang Lee foi mais longe decidiu rodar seu “Projeto Gemini” em 120 quadros por segundo, além de fazer uma versão digital de Will Smith jovem usando uma nova técnica de CGI. É tanta tecnologia que a maioria dos cinemas do mundo não poderá exibir o filme em sua versão robusta, já que não possuem projetores compatíveis.

Mas, o problema mais grave é que o foco foi tão grande na técnica que se esqueceu de algo primordial: o roteiro. Escrito por David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, o fio de trama acompanha o habilidoso assassino aposentado Henry Brogan (Smith) que vira alvo de seu antigo empregador, uma empresa que presta serviços ao governo dos EUA. Como ninguém é melhor matador do que o próprio Brogan, quem melhor para matá-lo do que seu clone?

Por essa breve descrição dá para perceber o quão batido é o texto, porém, sua obviedade poderia ser amenizada por uma direção inventiva, ou mesmo se toda a parafernália usada na concepção narrativa do filme surtisse algum efeito estético positivo. Os 120 quadros deixam as imagens tão reais que o cérebro não entende que aquilo é um filme. Parece que os atores estão fora da tela, como em uma espécie de teatro futurista representado em uma sala de cinema ou uma novela sem apuro fotográfico. A incapacidade de Lee em dirigir ação também prejudica a experiência. Seu trabalho de câmera deixa as cenas confusas e o excesso de clichês do gênero não ajuda.

Dito isso, é certo afirmar que o maior mérito de “Projeto Gemini” é a versão jovem e digital de Will Smith, que está longe de ser perfeita, é claro. Quando o ator aparece em sua versão “Um Maluco no Pedaço”, é difícil não se impressionar e notar o ligeiro avanço em relação aos rejuvenescimentos de atores feitos em produções recentes.

O clone é apresentado durante uma boa sequência que envolve uma criativa corrida de motos e carros, e  perseguições e tiroteios pelos telhados de uma cidade colombiana. Infelizmente, daí em diante, o que se vê é um emaranhado de clichês, diálogos ruins, direção preguiçosa e atuações paupérrimas.

Até os tão comemorados efeitos digitais parecem sofrer um downgrade no terceiro ato, transformando Will Smith júnior em um borrão de pixels. Talvez o orçamento tenha acabado antes do término da pós-produção. Tudo isso só indica que Ang Lee claramente foi um diretor de aluguel em “Projeto Gemini”, e que Will Smith precisa urgentemente dar uma pausa na carreira para começar a ler mais atentamente os roteiros que lhe chegam.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Paramout Pictures

Projeto Gemini

2.0
Regular!

Henry Brogan é um assassino de elite que se torna o alvo de um agente misterioso que aparentemente pode prever todos os seus movimentos. Ele logo descobre que o homem que está tentando matá-lo é uma versão mais jovem, rápida e clonada de si mesmo.

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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