Crítica: Rastros de um Sequestro

Não é nenhuma novidade que a Netflix, atualmente um dos maiores serviços de streaming mundial, está colocando todas as suas apostas em conteúdo original. Se engana, porém, quem acha que esse conteúdo é exclusivamente estadunidense, com muitas de suas produções recentes sendo criadas em países “estrangeiros”, o que vale tanto para séries, como a espanhola “La Casa de Papel”, a brasileira “3%” e a italiana “Suburra”, quanto para filmes, como o nacional “O Matador”. É apenas lógico que o cinema sul-coreano, que vem sido reconhecido mundialmente pela sua qualidade nos últimos anos, não ficaria de fora, e é daí que surge “Rastros de um Sequestro”, um thriller lançado no final de 2017 na plataforma.

Com clara inspiração em outros longas do estilo, principalmente “Oldboy” (2003), a trama segue Jin-seok (Kang Ha-neul), um jovem de 21 anos que se muda para uma casa nova com sua família, que consiste em seu pai (Moon Sung-keun), sua mãe (Na Young-hee) e seu irmão mais velho, Yoo-seok (Kim Mu-yeol). Tudo parece bem de início, porém, na primeira noite, Yoo-seok é sequestrado e a polícia não consegue encontrar nenhuma pista do que ocorreu. Após quase um mês, ele retorna para a casa com um comportamento estranho, o que, somado a outros mistérios, como um quarto cuja entrada é proibida, levanta a suspeita para o protagonista de que tem algo muito errado acontecendo por ali.

Logo no início, é perceptível como a fotografia é diferente do que se espera de um filme do estilo. Mesmo com um alto contraste e o alto uso de sombras, ela nunca parece desbotada ou obscura e apresenta uma grande variedade de tons, com algumas cenas com cores bem saturadas. É bem semelhante ao trabalho de outras produções coreanas do estilo, como “Eu Vi O Diabo” (2010) e o já mencionado “Oldboy” (2003). Esse uso de iluminação, em conjunto com algumas cenas de narração do personagem principal, também confere um aspecto de film noir.

Essa competência também é mantida na direção de Hang-jun Zhang. O primeiro ato é eficiente em construir a tensão necessária para as suas cenas, utilizando de planos holandeses nos momentos que o protagonista se encontra desnorteado por algum acontecimento estranho, apesar de cair em alguns clichês desnecessários como os jump scares em sequências de sonho. Ao mesmo tempo, um recurso bem utilizado são os flashbacks que aparecem constantemente para explicar a trama após suas reviravoltas, que se mostram necessários para o entendimento do longa, e não parecem forçados, somente expositivos demais em certos pontos.

Como dito, o roteiro consegue criar uma atmosfera intrigante com uma ideia original o suficiente e é marcado por diversas reviravoltas, o que funciona tanto a favor como contra o filme. Enquanto seu principal plot twist não é previsível, ele acontece na metade do filme, e a insistência em continuar com mais revelações ao longo da produção deixa cansativa a estrutura da trama. Chega a um ponto que a saturação é tanta que o longa se torna previsível em sua imprevisibilidade. No seu fim, o script acaba se tornando aquela clássica história que após terminar de assisti-la, quanto mais se pensa sobre, menos sentido faz.

Esse exagero na trama, porém, é lidado com seriedade pela sua dupla de atores principais, que fazem os dois irmãos. Kang Ha-neul torna transparente a estranheza do protagonista, deixando aquela dúvida se o que ele vê está acontecendo realmente ou se é loucura, e Kim Mu-yeol consegue construir bem duas facetas bem diferentes para o seu personagem.

Em seu fim, “Rastros de um Sequestro” é um longa competente, que prende a atenção com um mistério diferente, mas que talvez desaponte com uma explicação enrolada e longa demais. Apesar disso, é um bom thriller escondido na Netflix, que se mostra um discípulo decente (mas não tão impressionante quanto) do trabalho de Park Chan-wook.

Crítica: Rastros de um Sequestro
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