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Crítica

Crítica: Retrato de uma Jovem em Chamas

Num primeiro olhar, “Retrato de uma Jovem em Chamas” pode remeter ao também recente “Me Chame Pelo Seu Nome”dada temática das duas obras. De fato, há paralelos possíveis para serem traçados, mas as diferenças são inúmeras. Embora as histórias contadas sejam sobre amores proibidos, a primeira conta com elenco principal feminino e se passa na França no século XVIII, o que por si só dá características muito únicas para a produção da cineasta Céline Sciamma. Felizmente, as diferenças não param por aí, fazendo com que “Retrato de uma Jovem em Chamas” seja um excelente filme sobre amor com traços autorais muito singulares. O filme de Sciamma não fala só sobre um caso de amor lésbico ocorrido séculos atrás em território francês, fala sobre questões muito humanas e universais. Sua intenção é emocionar e tocar qualquer indivíduo que assista seu longa-metragem e, nessa empreitada, tem bastante sucesso.

Por mais que possa soar paradoxal, então, é necessário afirmar que o olhar aqui é essencialmente feminino. Por parte dos personagens e da narrativa que é exposta, claro, mas também em termos de realização. É inegável que há profundas diferenças em termos uma produção capitaneada por uma mulher no caso de uma trama como esta. Assim, o elenco sente-se muito a vontade e possui química fora de série, que conta muito para a veracidade daqueles eventos vistos em tela. O casal principal imprime muito bem não só amor, como também outros sentimentos, incluindo a distância inicial de onde o romance vai surgir. É notável como a relação vai evoluindo durante a projeção e como tal fato acaba cativando o espectador. Para além do talento das atrizes, é perceptível uma direção de atores muito acertada e consciente.

A direção é, aliás, de forma geral impecável ao escolher enquadramentos e movimentos de câmera. Céline Sciamma nunca cria distanciamento de seu público e evita que a frieza aflore nele, e faz isso ao filmar sempre perto do rosto de seus personagens, humanizando-os. Também é perspicaz ao criar momentos de grande intimidade, momentos que fazem com que seja possível se sentir confidente do casal principal. Se a construção do amor visto em tela é feito de modo crível e belo por meio do roteiro e das atuações, a direção ajuda a concretizar essa ideia e esbanja comoventes sequências que nunca se mostram bregas ou excessivas.

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Além disso, a fotografia e escolha de cores são outro aspecto irretocável de “Retrato de uma Jovem em Chamas”. Aspecto esse que se mostra presente também no figurino e na direção de arte. As cenas mais íntimas e cheias de sentimento são sempre colocadas dentro de um ótimo contraste de luz e escuro, com espectros de tonalidades quentes, o que ressalta um olhar mais carinhoso e a paixão que existe naqueles instantes. Por outro lado, essa tática não é usada sem moderação, uma vez que momentos mais sóbrios acontecem diante de uma iluminação menos chamativa e menos envolvente. Os detalhes criados pelas roupas usadas pelas personagens, bem como a forma com a qual suas cores se diferem e eventualmente se misturam é outra direção que chama a atenção é que é reveladora sobre a relação criada pelas mulheres protagonistas.

Vale ainda mencionar o comentário metalinguístico feito sobre a arte, ainda que seu exemplo seja a pintura, na medida em que reconhece que é através dela que nossa leitura do mundo fica à mostra.  Não apenas assim, mas sabe também que a arte produzida carrega retrato indissociável de quem somos, de como nos enxergamos.

Sem nunca se manter excessivamente triste, “Retrato de uma Jovem em Chamas” é agridoce e cativante ao mesmo tempo. Apresenta muita sinceridade durante toda sua direção, sem nunca deixar de exibir as muitas faces do amor. Ele e várias de suas vertentes, de suas formas de existir, são aquilo que existe de maior preciosidade no filme.

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Imagens e Vídeo: Supo Mungam Films

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Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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