9 de dezembro de 2019

À certa altura de “Simonal”, o cantor biografado (Fabrício Boliveira) e seu então empresário Carlos Imperial (Leandro Hassum) discutem acerca da canção “Terezinha”, primeiro sucesso do intérprete. Para Simonal, faltava suingue à letra e, por isso, não entendia porque seria o cantor certo para a faixa. Em resposta, Imperial afirma que eram exatamente as “papagaiadas” que Simonal acrescentaria à musica que iriam fazer dela um hit. Sem querer, esse diálogo apresenta exatamente o motivo que impede a cinebiografia dirigida por Leonardo Domingues de dar certo: falta suingue.

Acompanhando a trajetória de Wilson Simonal desde o início da carreira, ainda na banda Dry Boys, até a sua derrocada, quando se envolveu em batalhas judiciais e com agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), a escolha por abranger cerca de uma década da vida do cantor, apesar de arriscada, se justifica pela própria posição de Simonal no panteão da música popular brasileira: ele passou mais de vinte anos no ostracismo, sendo “redescoberto” apenas depois de sua morte em 2000. Logo, apesar de seu popular repertório, o “Rei do Swing” está longe de ser uma figura tão conhecida quanto Elis Regina e Tim Maia, dois músicos recentemente biografados pelo cinema.

Entretanto, nessa tentativa de apresentar a maior quantidade de informações e feitos do cantor em menos de duas horas, “Simonal” acaba se atrapalhando em um ritmo extremamente truncado. Não é raro ter-se a impressão de que o filme não passa de uma sequência de montagens embalada por alguma música do artista enquanto inumeráveis gráficos de manchetes de jornal se acumulam na tela. É uma estratégia que, a longo prazo, cansa o espectador e pouco apresenta as peculiaridades do biografado. O suingue característico de Wilson Simonal é substituído por uma versão genérica, muito menos interessante.

Essa abordagem impede também o filme de se aprofundar nas discussões que suscita, em especial a relação entre a ascensão e a queda de Simonal e a questão racial brasileira. Ao longo de sua primeira parte, o longa sutilmente constrói um panorama da pirâmide social do país: quanto maior o sucesso de Wilson Simonal, mais cercado de pessoas brancas ele está. É bastante significativo o fato de que, para dar início à sua carreira solo, ele tem que abandonar seus parceiros de banda (todos negros) a fim de usufruir da oportunidade dada por um branco, como ele também só consegue trazer outros negros para sua órbita (seja como assistentes ou compositores) a partir do momento em que se torna bem-sucedido o suficiente para abrir sua própria empresa.

Por sua vez, a segunda metade do filme aborda esses temas de maneira mais explícita, principalmente no tratamento diverso dado pela classe artística a brancos e negros envolvidos em algum grau com os militares. “Simonal” não nega a participação de agentes do DOPS, à mando do cantor, no sequestro de seu contador e nem de que o artista teria sido, no mínimo, ingênuo ao acreditar na falsa camaradagem dos agentes do Estado, porém o filme questiona por que Simonal foi relegado ao esquecimento enquanto outros artistas – brancos – foram perdoados por seu contato, em maior ou menor grau, com os ditadores.

Entretanto, esse rico e necessário debate se perde em meio à profusão de informações e a pressa com que “Simonal” as apresenta. A relação entre o protagonista e o racismo é um exemplo de como esse assunto é mal-explorado pelo filme. Durante uma entrevista, Simonal se irrita com um jornalista após ser perguntado sobre ser negro e ter uma Mercedes, chegando a sair de cena dizendo “racistas de merda”. Essa atitude seria perfeitamente normal caso o longa, até aquele momento, tivesse indicado qualquer tomada de consciência por parte do cantor. Entretanto, não é isso o que acontece; tudo é muito abrupto. À essa cena, segue-se a apresentação da música “Tributo a Martin Luther King” e mais alguns momentos que apresentam uma maior politização por parte de Simonal. Todavia, logo termina essa sequência e o cantor torna-se mais uma vez um completo alienado sobre a questão racial no Brasil, chegando a discutir com um antigo amigo seu por causa disso. Em suma, esse vai-e-volta nas opiniões da personagem soa falso e inconsistente, como se a relação entre Simonal e o racismo funcionasse à base de um interruptor.

O suingue de Wilson Simonal está presente em alguns elementos do filme (a dedicada interpretação de Boliveira, o genial plano-sequência do boteco), impedindo-o de se tornar um completo desperdício. Entretanto, o ritmo truncado, o roteiro frágil e algumas escolhas de produção duvidosas (a peruca de Ísis Valverde, como a esposa do cantor, é particularmente tosca) fazem de “Simonal” uma biografia longe de ser boa.


Imagens e vídeo: Divulgação/Downtown Filmes/Paris Filmes

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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