8 de dezembro de 2019

Nos dias 07 e 08 de fevereiro, terça e quarta, o teatro Oi Casa Grande recebeu apresentações do famoso “Terça Insana”, com a montagem de um novo espetáculo: “Grace Gianoukas Recebe”. Seguindo a linha de apresentações, tivemos alguns personagens solos, mas a condução narrativa é um talk show onde Grace o apresenta, com convidados, para entreter os passageiros de um avião que nunca decola.

Antes do espetáculo começar, enquanto o público se acomoda, Grace, vestida de comissária de bordo passa distribuindo balinhas, fazendo algumas graças e tirando selfies com os fãs presentes. Próximo ao início, que deu uma leve atrasada, ela ironiza a situação dizendo que a empresa aérea preza pela pontualidade e que o avião iria decolar em instantes. Nós já sabemos que isso, dentro da narrativa, nunca aconteceria, já que o avião é uma alusão ao Brasil que, mesmo sendo uma dos países mais ricos do mundo em inúmeras coisas, nossa companhia aérea governamental, assim como a tripulação, nunca consegue fazê-lo levantar voo.

Dentro desse louco talk show, Grace tem como assistente de palco a sua empregada Sheila (Darwin Demarchi), que ganha destaques aos poucos e conquista o público no decorrer da apresentação. Numa caricatura suburbana, ironizando quem se vestiu de verde e amarelo nas ruas, Sheila agrega perfeitamente à ironia constante sobre o povo brasileiro. Mais tarde, Darwin volta aos palcos como outro personagem, o empresário Aedes Aegypti, durante um quadro de entrevistas. Embora tenha um humor interessante, talvez esse momento, em que Grace e Darwin dividem o palco, seja o mais fraco de todo o espetáculo.

Para entreter as “crianças”, a Lili de Eraldo Fontiny sobe ao palco. A menina politicamente incorreta ganhou reconhecimento através da internet e o trabalho de Eraldo é oriundo de um humor negro que poucos artistas nacionais desenvolvem. Contudo, a piada das princesas, uma boneca branca, loura e de cabelo liso e outra negra, de cabelo louro e encrespado não foi agradável como o esperado. O viés do humor, muitas vezes, ou quase sempre, vem para criticar comportamentos sociais e o que começa com uma proposta interessante acaba sendo a mais preconceituosa da noite, infelizmente.

Rita Murai vem com três diferentes personagens. Com dois ótimos apresentados inicialmente, o seu último como uma vendedora de produtos em programas de televisão, é de longe o mais fraco e, podemos dizer, cansativo, embora bem próximo de uma construção da realidade. Com relação aos dois anteriores, há uma dúvida cruel para se dizer qual é o melhor. A primeira é uma velha passageira que está extremamente irritada com o Talk Show e sobe ao palco para contar um pouco da sua vida. Sua narrativa é bem palpável e sua fumante veterana é uma caricatura impagável. Mais tarde, ela volta como uma passageira alcoolizada que conversa com uma mulher imaginária, a “Sandra”, que vive perturbando sua cabeça. Sua ousadia em construir uma mulher bêbada com trejeitos bem fortes e caricatos dão um tom extremamente engraçado.

Por último, mas não menos importante, pelo contrário, temos a própria Grace Gianoukas, que sendo “ela mesma” (com traços construídos para a apresentadora) a comissária de bordo e a Santa Paciência, dão um brilho aparte. Segurar o rojão de quase duas horas de espetáculo, mesmo com convidados, não é nada fácil, mas devido a sua experiência consegue levar com facilidade e muita descontração. As passagens da comissária servem para aquecer o público quando chegam e para se despedir dele de um tom humorado, um pouco mais sério que todo o decorrer. Com a Santa Paciência, ela consegue reunir narrativas de outros personagens famosos como Aline Dorel e Cinderela, além de ridicularizar, no melhor sentido da coisa, a pequenez humana criada por Deus. Não podemos deixar de citar a votação pública para escolher o melhor sabor do chocolate Bis e sua destreza em conduzir facilmente o público ao sarcasmo social.

Os pequenos deslizes técnicos, que quase ninguém percebe, não foram capazes de ofuscar o brilho do bom humor e das gargalhadas entoadas pelo teatro. Terça Insana – Grace Gianoukas Recebe” é um resgate da politização bem humorada, fundamentada numa visão que o próprio povo muitas vezes não enxerga e ainda ri achando que é uma mera piada fundamentalista, de direita ou de esquerda. Politizado ou não, o espetáculo é uma excelente dose de humor para quem está em crise.

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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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