Crítica: The Wall

Uma ópera rock filmada, produto de um dos discos mais famosos do rock progressivo, “The Wall” leva seu espectador a uma jornada que o faz refletir sobre música, história, bullying, cinema e psicologia. O diretor Alan Parker e o músico Roger Waters mostram que uma boa história não precisa ficar necessariamente em uma mídia apenas, pode viajar da música para o cinema ou transbordar entre essas duas artes sem problema nenhum.

O filme acompanha a história do personagem “Pink” que nasceu na época da segunda guerra e não teve a oportunidade de conhecer seu pai que morreu em batalha. Por conta disso o menino cresce carente de uma figura paterna e é super protegido por sua mãe que acaba sendo uma das primeiras figuras a oprimi-lo, coisa que vai se repetindo em vários momentos de sua vida com pessoas diferentes. Pink vai para escola, instituição que na história é retratada como lugar que apenas quer padronizar seus alunos e arrancar o seu senso de individualidade, os transformando em “carne moída” como é mostrado no devaneio do protagonista.

Com o desenrolar da história a realidade e os sonhos de Pink vão se mesclando cada vez mais e ele se torna um músico de sucesso, porém é uma pessoa extremamente depressiva e incapaz de ter qualquer empatia por quem está a sua volta, sejam fãs querendo sexo ou até a esposa que o trai e não faz questão nenhuma de esconder.

Os ferimentos emocionais de Pink vão o moldando e o fazendo esquecer cada vez mais do seu exterior, onde ele começa a se autoflagelar para conseguir uma possível sensação, já que a falta de empatia não o faz mais se ligar as outras pessoas, e por conta disso que o “muro” do título da obra é construído. Pink se isola do mundo e se torna uma pessoa completamente intolerante, começa a oprimir outras pessoas de forma muito mais selvagem e nítida com a forma que o mundo o oprimiu e faz questão de disseminar o seu discurso de ódio para as massas que começam a segui-lo como um líder político, que acaba se assemelhando a um nazista (regime do qual seu pai foi combater na guerra e que acabou o matando).

No final da jornada o protagonista é forçado a encarar tudo aquilo que o moldou, ele é julgado pelos seus próprios demônios pelos crimes que acabou cometendo e como pena ele tem que destruir esse muro que o separa do mundo e não deixa seus verdadeiros sentimentos aflorarem, todo esse processo é doloroso e acompanhado de um grito gutural que até pode ser confundido com uma “morte”, mas apenas é a morte de um ciclo já que a criança que aparece tentando arrumar tudo no final nos mostra que um possível recomeço é possível. 

“The Wall” foi pioneiro em muitos aspectos, além de adaptar um disco de rock progressivo para o cinema foi um dos primeiros filmes a colocar cenas de animação dentro de um filme live-action, esse recurso foi usado para conseguir colocar em tela ambientes que seriam impossíveis de construir e filmar com a tecnologia disponível na época. Esse artificio acabou contando a favor da obra com o passar do tempo, já que o efeito não parece datado igual certos efeitos de computação gráfica.

A direção de Alan Parker é realmente eficiente no filme, consegue traçar uma linha narrativa muito boa, as histórias de bastidores dizem que Roger Waters (ex-integrante do Pink Floyd e compositor da maioria das músicas do disco) acompanhou todo o processo de elaboração do filme e encheu o diretor com demandas e ordens para que tudo saísse exatamente da forma que ele queria. Não temos como afirmar quem tem o maior mérito no resultado final do filme “The Wall”, mas o que pode ser dito é que um conjunto de ideias faraônicas que poderiam ser apontadas como impossíveis de sair do papel conseguiram ser transpostas para a tela do cinema, tudo isso de uma forma atemporal já que o filme continua atual não só no quesito tecnológico mas também do ponto de vista narrativo que consegue tanto fazer críticas sociais diversas que acabam culminando todas a um ponto em comum: o controle de massas e o desrespeito ao ser humano como individuo, em um mundo que não quer saber das particularidades ou objetivos da pessoa, apenas quer usar sua presença como força motriz de uma engrenagem seja como soldado em uma guerra, seja como militante nazista, ou seja como matéria prima de carne moída em uma fábrica.


Por Fernando Targino

Crítica: The Wall
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