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Crítica de TeatroEspetáculos

Crítica: Tom na Fazenda

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Convidado Especial
6 de abril de 2018 3 Mins Read

Verdadeiro e visceral, “Tom na Fazenda” coleciona prêmios merecidos e impressiona com qualidade singular

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Palco aparentemente vazio. Tudo que a plateia vê é uma lona que cobre o piso, completamente suja de barro, e alguns poucos objetos simples. Antes do terceiro sinal, um ator e uma atriz arrumam o espaço. É nesse contexto que a estória de Tom nos é apresentada. O texto, no original Tom à la Ferme, de um autor canadense Michel Marc Bouchard, até então inédito no Brasil, conta a estória de Tom que após a morte do namorado viaja até a fazenda onde moram a sogra e o cunhado. Lá ele se depara com a surpresa de que é um perfeito estranho para todos, assim como desconheciam a orientação sexual do recém falecido. Nesse ambiente rural, Tom não revela a verdade e vai entrando numa bola de neve de mentiras. Num estado de luto que beira a insanidade, ele ainda tem que lidar com a tortura física e psicológica do cunhado Francis que sabe de tudo e o obriga a continuar mentindo pelo bem da mãe. O espetáculo é traduzido, idealizado,produzido e protagonizado pelo ator Armando Babaioff.

Babaioff entra em cena vestindo Dolce & Gabbanna e termina em trapos, imundo e completamente decadente, ele vai entrando num ciclo de dependência psicológica da família e de tensão sexual com o cunhado – curva dramática muito bem alavancada pelo cenário de Aurora dos Campos e pelos figurinos de Bruno Perlatto. A cenografia e a indumentária do espetáculo se confundem com os personagens, contribuem tanto para a construção dos mesmos que parecem fazer parte de seus corpos, do lugar que habitam, de tudo. O barro vai tomando os corpos, na medida em que a fazenda vai se tornando essencial para Tom.

A direção de Rodrigo Portella consegue com poucos elementos arrebatar o espaço e ainda assim continuar simples para que as sutilezas das interpretações dos atores se sobressaiam (e que interpretações!). No dia assistido, em específico, as primeiras cenas de Tom não foram tão viscerais quanto as do fim – o ator foi se aquecendo aos poucos ao invés de já entrar segurando bem o personagem.

Tom na Fazenda

Além disso, cabe ao narrador os textos mais rebuscados, Armando as vezes cai na armadilha de exagerar na interpretação pela complexidade do que diz – o texto pede o singelo e solilóquios floreados destoam demais. Decerto deveria existir uma maneira mais objetiva de entrelaçar os pensamentos e as falas de Tom, da forma como ficou confunde um pouco a plateia – o simples nunca sai caro. Porém, isso é apenas um detalhe, Babaioff carrega o personagem com maestria e vivencia de forma visceral os percalços de Tom.

Kelzy Ecard tem uma interpretação tão arrebatadora que fica difícil colocar em palavras, ela conduz o luto da mãe com uma simplicidade e uma maestria primorosas, toda e qualquer cena na presença dela são diferenciadas. No momento o personagem Francis está sendo interpretado por Gustavo Rodrigues e o ator está um escândalo como o cunhado machista, opressor, homofóbico e violento que vai ficando cada vez mais atordoado pela crescente tensão entre ele e Tom e essa curva é trabalhada nos mínimos detalhes por Gustavo – detalhe para a cena em que o mesmo se observa no espelho e sem dizer uma palavra transmite toda a confusão que o seu personagem vive naquele momento. É de chorar! Camila Nhary entra na reta final da trama – pepino bem difícil de segurar – como alguém completamente aquém daquele ambiente trazendo um sopro de sanidade para Tom, cumpre seu papel de forma agradável e logo sai.

Existe um filme da estória que foi apresentado em 2013 no Festival de Veneza do cineasta canadense Xavier Dolan, porém não chegou a circular em nenhum festival brasileiro. Logo, o fator novidade é um chamariz a mais para a peça. O texto parte da sexualidade mas não é em nada panfletário, seu foco principal são as relações humanas. Ele pode ser longo mas o mergulho é tão profundo que o público sai do espetáculo querendo voltar. Tem merecido cada prêmio conquistado e precisa ser assistido, ovacionado e celebrado. “Tom na Fazenda” é necessário. Vida longa ao projeto!


Por Rayza Noiá

4.5
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Tom na Fazenda

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