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CríticaFilmes

Crítica: Troca de Rainhas

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
3 de agosto de 2018 3 Mins Read
“Não sei quem está pior. Ele, que morreu, ou eu, que vivo com pavor de morrer.”

qXoB AWA

Narra Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia (Die Geburt der Tragödie, 1872), o encontro entre Midas e Sileno. O primeiro, rei da Frígia, perseguia o segundo, sábio companheiro de Dionísio, durante longo tempo pela floresta. Quando, finalmente, conseguiu capturá-lo, indagou-lhe sobre a maior e mais preferível coisa para o homem. “O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.”, respondeu. “Troca de Rainhas” (L’échange des princesses, 2017), exibido no último Festival Varilux de Cinema Francês, presentifica a sabedoria do beberrão sátiro.

Mariana Vitória (Juliane Lepoureau), uma das protagonistas, conversa com sua governanta, Madame de Ventadour (Catherine Mouchet). A Rainha Infanta, de apenas quatro anos, diz preferir morrer cedo. As crianças, afinal, teriam seu lugar garantido no céu. Luísa Isabel (Anamaria Vartolomei), por outro lado, rejeita os costumes aristocráticos. Não caça, não gosta de música, não borda e tampouco lê. Aos doze anos, sonha, de outro modo, com uma infância simples. Envolvidas em um acordo diplomático, as garotas perdem a juventude. Com o objetivo de apaziguar as relações entre os dois reinos, o regente francês Filipe II (Olivier Gourmet) e o Rei Filipe V (Lambert Wilson), da Espanha, acertam uma troca: a menina mais nova, filha deste, casaria com o rei da França, Luís XV (Igor van Dessel), enquanto a mais velha, filha daquele, casaria com o príncipe espanhol Luís I (Kacey Mottet Klein).

Baseado no livro L’échange des princesses (2013), o roteiro trabalha a cruel lógica das infâncias roubadas. Chantal Thomas, autora e adaptadora da obra original, e Marc Dugain (“A Maldição de J. Edgar Hoover”) enfatizam, portanto, as privações enfrentadas pelos quatro jovens. Apesar da pouca idade, Mariana Vitória lida com a pressão para gerar herdeiros, ao passo que seu marido, Luís XV, lamenta os deveres reais. Luísa Isabel, por sua vez, encontra uma pequena camponesa no caminho para o novo palácio. Nessa cena, o expressivo olhar de Vartolomei (“Amor Eterno”) inveja a vida humilde negada à personagem. Já seu esposo, Luís I, revela-se um imaturo garoto, com poucos traquejos sociais. Todos, em suma, passam por semelhantes desconfortos. Para as meninas, no entanto, há, ainda, um agravante. “Mesmo como princesas”, não são vistas “como nada além de material para casamento”, resume a viúva de Filipe I, Isabela Carlota do Palatinado (Andréa Ferréol). lR8NyvWg

Também diretor do longa-metragem, Dugain acerta, principalmente, na ambientação de época. Privilegiando a iluminação natural, a fotografia de Gilles Porte (“A Grande Volta”) preenche a tela cinematográfica como se pintasse um quadro. Para esse fim, o figurino de Fabio Perrone (“Germinal”) e o desenho de produção de Alain-Pascal Housiaux e Patrick Dechesne (“A Loucura de Almayer”) oferecem poderosa contribuição. Na cena que dá nome ao filme, por exemplo, as princesas, trajadas de exuberantes vestimentas, trocam de lugar em um suntuoso salão. O movimento, semelhante ao de peças de xadrez, chama atenção por sua sincronizada coreografia, mérito de um competente trabalho com atores e figurantes.

No jogo de tabuleiro da corte, acordos políticos prevalecem sobre a vontade individual. Entende-se, assim, por que as crianças de “Troca de Rainhas” reavivam a sabedoria de Sileno. Contra o sacrifício da infância, preferem, enfim, o da própria vida. Aplicada ao presente, a questão levantada pelo longa-metragem rende frutíferas discussões. No lugar de projetos dos pais, os filhos nutrem, ora, aspirações suas. Cientes, porém, da inevitabilidade da morte, viver sob essa condição, formatando o disforme, torna-se o único e desejável caminho, seja para as personagens, seja para Dugain.

* O filme estreia dia 16, quinta-feira.

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Cinema FrancêsDramaDrama HistóricoFestival VariluxFestival Varilux de Cinema FrancêsFilme francêsFrançaHistóriaLuís XIV

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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