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CríticaFilmes

Crítica: Um Limite Entre Nós

Avatar de Kinha Fonteneles
Kinha Fonteneles
26 de fevereiro de 2017 6 Mins Read

                                                                     E quais são realmente os limites?

MV5BOTg0Nzc1NjA0MV5BMl5BanBnXkFtZTgwNTcyNDQ0MDI@. V1 SY1000 CR006391000 ALComeço, pois, pelo fim. Não seria justo comigo, com vocês leitores e muito menos com a obra, se eu simplesmente começasse a tecer dados técnicos, participação de ator tal, direção de A ou B… Não! Dessa vez não dá para ser assim. “Um Limite Entre Nós” (Fences, no Original), que tem estreia prevista para o dia 02 de março, foge desses estereótipos do “mais-do-mesmo”.

Ao entrarmos no cinema, a responsável por nos receber disse que o áudio original do filme continha erros propositais característicos dos personagens. Logo, quando traduziram para fazer a legenda, coube a produção adaptar-se às gírias sem que elas descaracterizassem o enredo.

E com isso, assim de cara, numa das primeiras cenas, temos um Denzel Washington solto, fanfarrão, sorridente e chamando a todos de “preto”.

E já começamos nossa análise por aí. Em época de ser politicamente-correto, houve por parte da direção (que também é de Denzel), quebrar paradigmas e esfregar na cara do telespectador como era a realidade em 1950. O preconceito enraizado, as dificuldades dos negros perante a “sociedade branca” e a aceitação de ambos entre si. Tirar a alcunha “negro” e substituí-la por “preto”, mostra, na minha opinião, um puxão de orelha que saiu dos anos 50 e chegou em 2017.

A obra conta a história de Troy Maxson (Denzel Washington), que aos 53 anos tornou-se um frustrado catador de lixo, cujo único objetivo na vida medíocre (e que fique claro que uso “medíocre” em seu sentido literal), é conseguir sair da recolhida do lixo (lixo dos brancos!) e começar a dirigir o caminhão da coleta.

Um Limite Entre Nós Fences 19

Com um rancor internalizado, Troy, que outrora era um jogador de baseball, baseia suas decepções no meio esportivo única e exclusivamente na cor da pele. Coube a ele recolher o lixo dos brancos. E coube a ele também, lidar com as mazelas de ser o que era.

Denzel entrou sensacional no papel de Troy (ponto!). Estava intenso e único, e pouco se acercava dos galãs que costumava fazer. Sua caracterização trazia à tona realmente um homem cansado, amargurado, duro (com ele mesmo e com os outros). Um homem que deu sorte na vida, mas não na vida que ele queria.

No papel de esposa dedicada e que acreditava que o marido era alguém, temos nada mais, nada menos; que a ganhadora do Globo de Ouro (como atriz coadjuvante) Viola Davis. Viola é Rose. E Rose tem um pouquinho de todas as mulheres que amam. Que amam com fervor… das mulheres que acreditam… das mulheres que tem princípio.

Rose e Troy são casados há 17 anos. E apesar dele ser o gerador da renda da família, é ela quem administra. E com isso, coube a ela a administrar também os rompantes do marido, as dificuldades dele com os filhos (um com ela e outro mais velho de outro casamento), a casa, os sentimentos e a dualidade com que o enredo se desenrola. Porque sim, o filme é tão dual, que a afeição que tínhamos por Troy no começo transformara-se em gritinhos de “ooohhh”, dentro do cinema.

Viola é sem comentários. É sério… eu estou procurando um adjetivo para descrever sua atuação nesse filme, mas simplesmente não existe nenhum tão magnânimo assim. Mas se me serve de consolo (e comparação), temos Rose versus Annalise Keating (sua personagem, também premiada em “How to get Away with Murder”); e quem assistiu as duas vai entender o que quero dizer. Viola vai da negra pobre estereotipada, à negra bem-sucedida e dona de si. Viola pode ser quem ela quiser.

Além dos atores aqui já mencionados, temos outros dois destaques:

Mykelti Williamson, que interpreta o irmão de Troy, Gabriel. Irmão este, que sofreu um acidente na guerra e que infelizmente teve sequelas sérias. E Jovan Adepo, que interpreta o filho sonhador de Troy e Rose; Cory.

Cory e o tio sofrem – cada um a sua maneira – essa dureza, que o personagem de Denzel carrega. E um deles é responsável por uma das cenas mais bonitas do filme (que eu não vou contar, óbvio!).

Um Limite Entre Nós Fences 23

Baseado na obra teatral (homônima), “Um Limite Entre Nós”, que já havia sido premiada nos palcos, agora tem oportunidades de ganhar prêmios na telona. Concorrendo a quatro indicações ao Oscar, ele tem grandes (enormes!) chances nas categorias: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado.

E puxando esse gancho do teatro, a adaptação/direção que de Denzel trouxe muito dos tablados para as telas. O cenário é simples, mas cheio de elementos simbólicos. Uma árvore com uma bola de baseball pendurada, uma cerca, a roupa pendurada no varal… o quintal com uma horta, uma vizinhança tipicamente negra, uma trombeta, a garrafa de bebida… São elementos que compõem o cenário, mas que são parte fundamental dos personagens. São extensões de cada personalidade ali apresentada.

A caraterização dos personagens segue, também, esse mote teatral . As roupas, e os acessórios ao redor, são tão fiéis à época que vemos os pequenos detalhes até no pregador que Rose utiliza para pendurá-las. O jogo de câmera faz que as cenas sejam amplificadas, fazendo com que o espectador tenha uma visão geral dos cômodos da casa, por exemplo. Da sala, vemos o que se passa na cozinha, bem como as cenas que aparecem no quintal, e tem também, a cozinha como plano de fundo.

Um Limite Entre Nós Fences 25

O fato é que nada passa desapercebido. Até mesmo o jogo com os figurantes. Se os atores estão fazendo uma cena na sala e as cortinas da janela estão fechadas, conseguimos ver a sombra das pessoas que estão passando na rua. Tudo foi pensando meticulosamente para que a transposição teatro-cinema fosse a mais real possível. E como o próprio Denzel fazia parte do elenco original da peça, creio que ficou mais fácil fazer esse jogo com cenário-atores-câmera-e afins…

A fotografia, bem, a imagem foi envelhecida para se adaptar ao ano que correspondia. O que nos trouxe tons mais pastéis, com toques em sépia mais puxados para o marrom. Como se fosse realmente um filme mais antigo. Na verdade, a fotografia nos mostra um filme vivido e filmado em 1950, deixando longe, bem longe, o ano de 2016  em que foi produzido.

Em suma, os elementos que compõe a obra fazem com se confirme seu favoritismo à algumas das indicações ao Oscar. É um filme emocionante não só pela história e adaptação, mas também pelo contexto sócio-histórico dos negros nos anos 50. Os atores estão ali realmente de corpo e alma.  E em tempos de estatueta, esse é um dos longas que você precisa dar uma chance.


Quando o filme acabou e eu consegui me recompor, virei para o Daniel (Gravelli) e disse: “nunca mais me mande assistir filmes que me façam chorar”. E como resposta: “acontece, acontece…” E rimos sob a tensão de tudo que tínhamos acabado de ver. Assista ao filme, e venha se surpreender (e chorar, assim, quem sabe), com essa obra incrível.

Como curiosidade: Denzel fez o papel de Troy no teatro. E ele acreditou tanto no potencial da peça, que fez questão de adaptá-la para o cinema. E deu certo! O filme merece ser um grande vencedor hoje a noite no Oscar, e levar umas estatuetas para casa. Assista aqui na Woo! Magazine a cerimônia de entrega dos prêmios e não deixe de participar do nosso Bolão #oscarwoo.

 

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Denzel WashingtonOscar 2017Viola Davis

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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa. Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga. Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida. Ah! É uma nefelibata sem cura.

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