Crítica: Um Lugar Silencioso

Em uma pequena cidade dos EUA uma família sobrevive a algo que aparentemente devastou quase toda a vida do planeta. O que resta agora são destroços do que já foi a nossa civilização. A câmera passeia no meio de casas e carros abandonados até chegar aos humanos que ainda lutam; amontoando-se em grupos de maltrapilhos. Sinopses como essa se tornaram comuns no cinema e na TV em produções que mostram invasões alienígenas, monstros, maquinas assassinas, vírus e zumbis. Quando um filme nesses moldes é anunciado, todos se perguntam: Será que haverá algo de novo? No caso de “Um Lugar Silencioso”, a resposta é sim.

A tal família aqui é formada pelo pai (John Krasinski), a mãe (Emily Blunt), a filha surda (Millicent Simmonds) e os dois filhos interpretados por Noah Jupe e Cade Woodward. No inicio do longa vemos todos eles indo a um pequeno mercado atrás de suprimentos. O que chama a atenção nessa sequencia é o silencio. Não há diálogos (a não ser o por meio da linguagem de sinais), não há música, e todo o caminho entre a casa na fazendo onde eles moram até a pequena cidade é demarcado por uma trilha de areia, que serve para abafar os ruídos de seus passos. Todos estão descalços e tomam o maior cuidado ao manusear objetos que possam fazer qualquer tipo de som. Logo é revelado que os humanos foram subjugados por um predador cruel que, apesar de cego, possui superaudição.

John Krasinski, que atua e também dirigi, consegue criar um ambiente sufocante ao tirar a capacidade de seus personagens de se comunicarem verbalmente e de tensão quando a simples queda de um objeto pode ser fatal. Nem mesmo os gritos podem ser ouvidos quando as mortes acontecem. Usando “Sinais” de M. Night Shyamalan como referencia, o diretor aterroriza nas cenas que a família está presa em casa enquanto as criaturas espreitam do lado de fora. O andar hora quadrupede, hora ereto, faz a madeira ranger e casa tremer com a movimentação rápida de caçadores no teto e pelas paredes. A menção a “Alien” feita acima também não é por acaso, já que Krasinski bebe na fonte do clássico de Ridley Scott para assustar a plateia quando as vitimas são pegas de surpresa por um ataque rápido, que vem de fora do quadro. Só sai uma nave perdida no espaço e entra uma fazenda isolada.Além do clima bem construído, o filme faz uso de um bom elenco. Dor, medo e desespero são entregues por meio de expressões, e a novata Simmonds, que perdeu a audição na vida real, é o foco da trama. Por causa de acontecimentos que não cabem ser explanados para evitar spoilers, ela se sente preterida por um pai que não consegue demonstrar seu amor. Blunt é encantadora como sempre na pele de uma mulher que quer a todo custo defender sua prole e Krasinski segue a linha do pai focado em seguir as regras de uma nova realidade.  Ou seja, “Um Lugar Silencioso” é um drama familiar independente misturado com o gênero terror, passado em um ambiente apocalíptico. É evidente que as intenções íntimas do roteiro possuem origem no casamento entre os atores principais, tornando a interação entre os dois ainda mais orgânica na tela.

Claro que nem tudo são louros, já que os clichês do gênero insistem em dar as caras. Então, não se surpreenda com os sustos fáceis proporcionados por falsas situações de perigo ou com algo que aparece na tela de surpresa. E, se o design de som é competente em construir um mundo onde pequenos elementos sonoros dão vida a um mundo de silêncio, ou quando “sentimos” a surdes da garota como quando nossos ouvidos são tampados pela agua, ele também é prosaico em aumentar o tom para que aquele susto produzido por algo que aparece na tela seja potencializado. Pontos relevantes, mas que não atrapalham a competência de um ótimo filme de terror.

Crítica: Um Lugar Silencioso
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