Crítica: O Homem das Cavernas

No fim dos anos 1990, o departamento de animações da DreamWorks fez um acordo com o promissor estúdio de animação britânico Aardman no qual concordaram em uma parceria que duraria por cinco filmes. Entretanto, após o sucesso inicial de “A Fuga das Galinhas” (2000) e “Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais” (2005), o desempenho abaixo do esperado de “Por Água Abaixo” (2006) nas bilheterias e diversos atritos criativos entre as duas empresas encerraram prematuramente esse acordo. Os planos para uma quarta produção, passada na era pré-histórica, acabaram seguindo em frente para ambas, com a produtora americana o transformando em “Os Croods” (2013) e a companhia inglesa lançando, cinco anos depois, “O Homem das Cavernas”. Porém, onde o primeiro é caracterizado pela sua computação gráfica e animação 3D, o segundo se mantém fiel às raízes do stop motion.

Dirigido por Nick Park, o filme conta a história de Doug (Marco Luque, na dublagem brasileira), um jovem pertencente a uma tribo de homens das cavernas que habita um vale florestal. Sua paz é interrompida uma noite quando Lorde Nufi (Márcio Simões), um rico conquistador da Era do Bronze, invade o território e expulsa seus habitantes para as terras áridas que o cercam. Doug, que sem querer acaba indo para a cidade imperial do Bronze, faz então um acordo com o monarca: se o seu povo conseguir vencer o time real em uma partida de futebol, eles podem voltar para a casa. O único problema é o fato de que nem ele e nem seus conterrâneos sabem o que é ou como se joga o esporte.

A animação tem um roteiro bem básico, que utiliza diversos dos clichês de filmes de esporte de uma maneira tão exagerada que só pode ser proposital, quase como uma paródia. Esse uso, porém, deixa bem previsível o rumo da história, e após a confusão inicial pela mistura temática de futebol com era das cavernas, é imediatamente deduzível tudo que ocorrerá ao longo da trama.

Esse filme, porém, é um claro exemplo de produção que prioriza estilo a história, e é nisso que o projeto mostra seu lado ambicioso e criativo. A técnica do diretor é instantaneamente reconhecível e o stop motion é realizado com uma fluidez tão bem conduzida que chega a se passar por uma animação digital em certos momentos. O design da produção é visível em seus cenários bem detalhados e vivos, além de ser bem engenhoso, trabalhando bem com o tempo histórico do longa para fins humorísticos, como o uso de um mamute como uma escavadeira ou de um besouro como um barbeador.

Ao contrário do humor escatológico que muitas produções animadas optam por utilizar e que muitas vezes falham em impressionar, “O Homem das Cavernas” tem uma abordagem mais leve e sagaz. O roteiro apresenta piadas que não estariam deslocadas em uma sketch de Monty Python, e a direção de Nick Park utiliza de diversos recursos visuais, como a noção de profundidade, para criar momentos divertidos. A temática de futebol também é aproveitada para esses fins com a inclusão de várias referencias cômicas do assunto, por exemplo, o time “Real Bronzio”, que pode ser considerado uma paródia do Real Madrid, ou a queda com atuação exagerada de um jogador que quer pedir falta.

Essa prioridade para a técnica do stop motion, porém, limita um pouco a animação. Com um processo de captação complicado, que permitia que apenas 40 segundos, dos 80 minutos do longa, fossem gravados diariamente, o filme não tem muito tempo a perder e sua história se move na velocidade da luz. A quantidade de personagens que são apresentados rapidamente e sempre andam em conjunto também não ajuda, já que identificá-los se torna uma tarefa confusa.

Também vale destacar o trabalho da equipe de dublagem brasileira que, apesar de muito bem feito, sofre um pouco com a decisão de fazer com que todos da “Idade do Bronze” falem em uma mistura de português com espanhol. Enquanto no áudio original esses personagens tem um sotaque caricato francês, – e faz sentido a tradução brasileira trocar para a língua dos “rivais argentinos” – o “portunhol” é às vezes incompreensível e fica cansativo rápido.

É peculiar como uma animação vinda do Reino Unido tenha tanta cara de uma produção brasileira: a questão da exploração de um povo mais primitivo por um mais avançado e o amor por futebol são temas que conversam bastante com o público nacional. Por fim, “O Homem das Cavernas” é uma experiência divertida com uma técnica incrível, mas que falha em ser memorável como seus antecessores.

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