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CríticaFilmes

Crítica: Um Motorista de Táxi

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Convidado Especial
22 de outubro de 2017 3 Mins Read

Uma jornada carregada de história e um realismo singular, apenas possível quando momentos importantes da humanidade são levados ao cinema

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Aos mais desavisados “Um Motorista de Táxi” será uma experiência cinematográfica completa, não faltando uma quantidade de comédia razoável, drama familiar, rumando drasticamente para momentos dignos dos clássicos de intrigas internacionais e tendo até o seu próprio momento Velozes & Furiosos.

Apesar deste primeiro parágrafo auto explicativo, a produção Sul Coreana é muito mais complexa do que isso, retratando como plano de fundo um recorte histórico extremamente relevante para o país, mas que é desconhecido por boa parte do ocidente atualmente. Certamente fará com que os espectadores se interessem pelo período e que jamais seja esquecido.

Em 1980, a capital do país, Seul, vivia momentos de exceção promovidos por um regime militar autoritário e altamente repressivo. Ao mesmo tempo em que movimentos populares formados em sua maioria por estudantes universitários,  se opuseram e promovem constantes manifestações e embates contra as forças armadas.

Neste contexto, Kim (Song Kang-ho) é um taxista como qualquer outro, com uma filha pequena para criar e alguns problemas financeiros. Um pouco alheio ao que exatamente acontece em sua cidade, ele continua seu trabalho normalmente. Ao conhecer um jornalista alemão, Jürgen Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que necessita a todo custo chegar em Gwangju, uma cidade vizinha ao sul de Seul, pois lá a lei marcial imposta recentemente desencadeou um estado de sítio na região, onde informações do que realmente estava acontecendo eram quase que impossíveis de serem transmitidas para o exterior.0

A capacidade de transformar um filme pré determinado como “baseado em fatos reais” e ainda mais pela carga histórica, tão importante quanto a direção de Hun Jang é o roteiro de Eom Yu-na, que em pouco mais de 2 horas de filme, consegue juntar dois personagens com objetivos completamente diferentes inseridos em uma situação extraordinária para suas vidas e criar um vínculo moral entre eles, apesar da dificuldade que a língua impõe.

Quantas vezes assistimos filmes que se tivesse 30 minutos a mais ou a menos fariam tanta diferença na sua conclusão narrativa, “Um Motorista de Táxi” com suas 2 horas e 10 minutos é contada no tempo em que precisa ser. E faz isso com qualidade de sobra, sabendo exatamente quando alternar entre o que propriamente é da história do filme e o que é da conta do contexto histórico.

Jogar um estrangeiro em um país de outro continente e criar naturalmente a barreira do idioma e cultural, por si só é capaz de gerar conflitos infinitos para o filme. Mas a escolha de manter este entrave apenas como secundário e permiter que a história seja contada pelo lado de Kim, ou seja, o personagem que a princípio seria o menos afetado e assim podermos ver como o mundo gira à sua volta.

É impossível não lembrar de “5 Dias de Guerra” (2008) ao assistirmos a tensão que “Um Motorista de Táxi” dá sobre a profissão dos repórteres de transmitir a todo custo uma informação que tem o poder de mudar o rumo da história, e também com jornalistas estrangeiros em solo desconhecido. O carisma de Song Kang-ho transmitindo uma inocência natural ao personagem, mas longe de uma atuação boba, mesmo que no começo do filme possa dar a noção que será, faz com que facilmente a barreira entre os dois paralelos (realidade de um taxista x tensão política) seja quebrada em um sentido extremamente convincente e sem nenhum tipo de força exagerada em pontos altos mais dramáticos.

Com tanto tempo para fazer os caminhos da narrativa funcionar, consequentemente abre espaço para os ruins, mas em em cima de uma análise geral sobre estes erros, nenhum se sobressai ao todo da obra, que permanece uma ótima dica para a temática do jornalismo dentro do cinema e com direito a todos os conceitos cinematográficos de uma história forte.


Por Guilherme Santos

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