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Crítica

Crítica: Cadáveres Bronzeados

Quero ser Quentin Tarantino. Ou seria Robert Rodriguez?

Pense em passar o verão no Mediterrâneo. O mar azul, o sol ardente, aquele horizonte, as ruínas incríveis de uma cidade antiga e etc. Bom, esse sonho pode facilmente virar um pesadelo, como em “Cadáveres Bronzeados” (Laissez Bronzer Les Cadavres). Essa produção que se passa numa aldeia remota e abandonada, que acaba de ser tomada pelo artista Max Bernier (Marc Barbé) e sua musa, Luce (Elina Löwensohn), em busca de inspiração. Nesse período, eles recebem Rhino (Stéphane Ferrara) e seus parceiros, “O Bruto Calvo” (Bernie Bonvoisin) e “O Jovem Bandido” (Pierre Nisse). Porém, essa hospedagem faz parte do plano para roubar 250 quilos de ouro.

A ideia segue o planejado, contudo, na volta pra casa os ladrões acabam encontrando a mulher do artista no meio da estrada com seu filho e a babá. Elas, sem saber de nada, são levadas pela gangue até a “casa” onde o artista se encontra e eles se preparam para ir embora. Só que, para piorar, dois policiais (Marilyn Jess / Hervé Sogne) chegam para atrapalhar os planos. Agora, o local pacífico, que costumava ser cenário de orgias e atos selvagens, transforma-se em um macabro campo de batalha. Num jogo de gato e rato, é uma questão de tempo para que só os mais espertos e rápidos sobrevivam, não importando de qual lado está.

O roteiro e a direção são divididas pelo o casal Hélène Cattet e Bruno Forzani, mas o fato é que não podemos dizer que existe um roteiro, ainda que o filme seja baseado na obra de Jean-Pierre Bastid e Jean-Patrick Manchette. A base dramática fica diluída demais, quase inexistente, se comparada à proposta visual. Se olharmos com atenção, o roteiro consiste em ter o roubo, os policiais irem atrás e assim selecionar qual será a morte da cada um e em qual ordem. A narrativa na verdade é uma desordem, pois não há preocupação nenhuma em construir estruturas persuasivas para seus personagens uma vez que o objetivo é matá-los dentro de uma justificativa bem rasa. O jogo de gato e rato segue o clichê de bandido versus policial, sem muitas surpresas. Aqui, a ideia é deixar o público nervoso com sequências rápidas e cheias de sangue.

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Nesse ponto não podemos falar um “a” sequer contra a proposta. Ficamos até sem fôlego de tanta tensão criada com cada disparo. Mas essa estética é um caso de amor direto com outros dois diretores que adoram esse tipo de trabalho. Tarantino e Rodriguez, que já estão no mercado há bastante tempo talvez tenham dois fãs declarados, afinal, se não fosse a falta de roteiro e outras coisinhas em falta, esse poderia facilmente ser um filme dos aclamados diretores. Com a direção de fotografia de Manuel Dacosse, aplicando uma textura arenosa para ampliar a sensação de calor e adrenalina e muito jogo de luz e sombra, o casal de diretores usa a abusa dos planos fechados. A aplicação é uma contramão aos poucos planos abertos do longa. Assim conduzem toda a estrutura pelos detalhes em cada take e/ou sequência, tirando qualquer possibilidade do público olhar para outro foco, estabelecendo toda narrativa com planos ajustados a uma dinâmica física, de ação direta.

É dentro desse desenvolvimento que precisamos aplaudir outros departamentos. O primeiro é a impecável edição/mixagem de som. Sob o atento trabalho de Daniel Bruylandt e Aline Gavroy, temos aqui não só um resultado primoroso na execução cuidadosa de sync, como o estabelecimento do áudio como uma narrativa única dentro da própria obra. Ainda se tratando do áudio, temos a trilha que nos lembra muito as de filmes de ação/épicos dos anos 70/80. Ela é muitas vezes aplicada às sequências de performances que dialoga diretamente à aflição vivida durante toda a troca de tiros. Mas tudo isso só é possível pela ágil montagem de Bernard Beet, na qual usa a movimentação de câmera para trabalhar uma narrativa de transição. Sem ela, de nada adiantaria a proposta da direção e o, muitas vezes, ensurdecedor áudio do filme.

Em seu elenco o único destaque é a atriz romena Elina Löwensohn, como a musa do artista que traz uma lucidez estranha e até psico para aquela realidade. De alguma maneira esquisita ela consegue nos transparecer uma sensibilidade deturpada e ainda assim real na trama. Contudo sua atuação não chega a ser das melhores, como o resto do elenco. Na realidade, eles entregam o necessários, dentro uma uma caricatura oitentista, cheia de marcações e trejeitos teatrais. Se analisarmos do ponto naturalista, essa falsidade cênica não chega a ser desesperadora por já estarmos angustiados e atentos demais esperando o próximo disparo. É com essa “estética do tiro”, que “Deixe os Cadáveres Bronzear” (tradução livre do título original) ou “Cadáveres Bronzeados” prende seu espectador. Em se tratando do visual, temos uma proposta impecável, um filme surpreendente e implacável com suas performances contemporâneas alinhadas a cenas de extrema violência. Mas se formos a fundo, sua base é tão sólida quando o sangue presente na produção.

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Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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